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Anadia // Vilarinho do Bairro  

Torres e Pombeiro da Beira: O “ADN” partilhado de duas terras unidas por um acordo medieval

No sábado, dia 16 de maio, a aldeia de Torres (Vilarinho do Bairro) foi palco de uma Festa Medieval. Evento foi promovido pela Associação Recuperar a Aldeia de Torres e levou a cabo a reconstituição de um tratado que alterou a geopolítica local na Idade Média.

De um acordo de 1355 nasceu uma aliança entre os concelhos de Anadia e Arganil. Uma jornada feita de rigor histórico, afetos e de reencontro de uma turma universitária com 47 anos de amizade.

D. Martim Lourenço da Cunha, um homem que, 600 anos passados, une duas terras. Populações unidas para receber aquele que foi o seu senhor e El-Rei D. Afonso IV, que volta a Torres mais de meio milénio depois. As ruas da aldeia recuaram aos tempos medievais, com bandeiras, vestimentas e música da época. O evento, promovido pela Associação Recuperar a Aldeia de Torres, teve lugar no sábado passado e levou a cabo uma reconstituição viva de um tratado que alterou a geopolítica local na Idade Média.

Duas figuras medievais

Os protagonistas da recriação, D. Afonso IV e D. Martim Lourenço da Cunha, partilharam uma relação intensa e estratégica. Tal como explicou o Professor Doutor Luís Rêpas, especialista em História Medieval e convidado para uma palestra sobre Torres na Idade Média, Martim Lourenço da Cunha integrou o ramo principal de uma das grandes linhagens portuguesas, originária do Entre Douro e Minho, com forte presença na corte real.

“Martim Lourenço da Cunha foi um nobre extraordinariamente importante no contexto dos últimos anos de reinado de D. Dinis e do reinado de D. Afonso IV”, esclarece o historiador. Numa era marcada por forte centralização do poder real e o descontentamento da nobreza portuguesa, D. Martim colocou-se firmemente ao lado do infante D. Afonso (futuro Afonso IV) na guerra civil que este moveu contra o rei D. Dinis, seu pai.

A ousadia do fidalgo ficou registada numa queixa apresentada por D. Dinis em 1321. Nela, o monarca acusa D. Martim de ter invadido a localidade de Pombeiro da Beira e agredido um funcionário real daquela localidade, deixando-o à beira da morte. Mas o que verdadeiramente ofendeu a coroa foi o facto de Martim da Cunha não comparecer perante a justiça e enviar uma carta onde desafiava abertamente o rei D. Dinis. Esta cumplicidade com o infante D. Afonso rendeu-lhe, anos mais tarde, um estatuto de extrema importância na corte.

Em 1355, o rei, reconhecendo os “muitos e extremados serviços” do seu vassalo e com o desejo de beneficiar a sua prima, que era mulher de D. Martim, propôs uma permuta. Em troca dos direitos e títulos de Pombeiro da Beira, terra em tempos ocupada pelos romanos e onde se suspeitava a existência de minas de ouro, D. Martim Lourenço da Cunha entregou de forma perpétua à Coroa as suas propriedades de Vilarinho do Bairro e Torres.

A recriação deste momento histórico ganhou vida com a “Episódio” – Companhia de Teatro e Educação Histórica. Liderada por Nuno Marques, a companhia recusa o facilitismo comercial que muitas vezes desvirtua este tipo de eventos: “o nosso objetivo (…) não é fazer feiras medievais, é fazer recriação histórica”. Conscientes do grande aumento deste tipo de feiras em Portugal, a “Episódio” foca-se em teatralizar episódios reais da História do país.

A companhia de teatro trouxe um verdadeiro espírito medieval para a aldeia de Torres. Com trajes de época, um acampamento real, guarda-pessoal do rei e até o imprescindível burro de carga.

O programa do evento teve início no Paço de D. Martim da Cunha, seguiu em cortejo até ao largo da capela, onde El-Rei for recebido, e ofereceu uma imersão no século XIV. Houve espaço para música, dança e peças de artilharia. O ponto alto do dia ocorreu com a recriação da assinatura da permuta da troca de terras.

Para Nuno Marques, a demonstração serviu para consciencializar a população atual sobre o seu próprio território. “Toda a teatralização institucional serve para que as pessoas também saibam que há terras, hoje em dia, que mesmo não sendo sedes de autarquias, há 500 anos tinham muita importância. Se o rei faz uma troca de terras nestas aldeias é porque estas terras tinham algum valor”, afirmando ainda que “nada se faz no futuro sem ter essas bases, sem saber de onde vimos, para sabermos melhor para onde ir”.

ADN encontrado 600 anos depois

Com um rigor histórico assegurado, a Festa Medieval de 2026 ganhou um significado ainda mais especial para a professora Natália Loureiro – que dedicou a sua vida profissional ao ensino e regressou a Torres, à casa dos seus avós, recuperando as lembranças da juventude que viveu na aldeia – a sua antiga turma de faculdade (curso de História, de 1975-79 da Universidade de Coimbra) realizou o seu encontro anual neste dia. Este grupo mantém uma tradição ininterrupta: todos os anos se reúnem desde o fim da licenciatura, celebrando em Torres o seu 47.º encontro.

Maria Miranda, colega de curso e visitante, não escondeu o orgulho e felicidade: “achei muito interessante, um trabalho muito abrangente. Esta intermunicipalidade que se deseja alargar no país. O trabalho da minha colega foi, de facto, espetacular porque juntou aqui pessoas de vários sítios. Nós sentimo-nos muito bem”, frisou, com a promessa de para o ano voltar.

O banquete servido no Paço de Torres (Adega do Avelar) juntou convívio, recriação e História. Os convidados, vestidos a rigor com trajes e adereços da época, degustaram iguarias como cabra avinhada e porco rejoado, acompanhados pelo aclamado “pão del-rei” – uma receita exclusiva e artesanal criada pela associação, que leva farinha de milho, trigo, alfarroba e nozes.

Em 1355, uma troca de terras selou o destino de duas localidades portuguesas. De um lado, o rei D. Afonso IV; do outro, o seu fiel nobre, D. Martim Lourenço da Cunha. Hoje, mais de seis séculos depois, a aldeia de Torres e a vila de Pombeiro da Beira provam que os documentos históricos podem ditar fronteiras, mas é o “ADN” das suas gentes que eterniza a história. A Associação Recuperar a Aldeia de Torres trouxe o espírito medieval à aldeia e provou, uma vez mais, que a história local é um instrumento poderoso de união, valorização do património e desenvolvimento local. 600 anos depois, as ruas de Torres voltaram a receber El-Rei.

O reencontro no século XXI

A passagem de mais de meio milénio quase apagou por completo esta ligação medieval entre as duas terras. Mas uma investigação levada a cabo pela professora Natália Loureiro, durante o período da pandemia, veio reavivar a ligação entre a Bairrada anadiense e o interior de Arganil. ”Parece que há um ADN entre nós que vamos encontrar passado 600 anos”, confessa a organizadora da festa medieval. Após
a sua investigação, os membros da associação de Torres visitaram a vila de Pombeiro e a sua história e, no passado sábado, esse mesmo ADN manifestou-se com a vinda de habitantes de Pombeiro da Beira para participar nas festividades.

O presidente da Câmara de Arganil, Luís Costa, salientou o impacto do projeto: “Aquilo que nós encontramos na história do senhorio de Pombeiro é uma ligação a esta terra (…) há três anos, a professora Natália entendeu recuperar essa ligação histórica que, apesar de tudo, nos une e que era, para a generalidade dos nossos concidadãos, desconhecida. É este elo que une os territórios e que nós queremos agora preservar e reafirmar”.

Esta visão intermunicipal é partilhada por Jorge Sampaio. O presidente da Câmara Municipal de Anadia enalteceu o papel da iniciativa popular como motor de desenvolvimento: “A importância destes eventos é enorme. Primeiro do ponto de vista cultural, de produzir cultura nestas aldeias. Depois, para fixar aqui pessoas. Desde que esta associação foi criada, a quantidade de pessoas que vieram para Torres é impressionante”.

Luís Alves
Estudante de Mestrado em Jornalismo