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Armando Humberto Pinto

Professor Catedrático da Universidade de Aveiro

A Cidadania

Durante muito tempo habituámo-nos a encarar o Estado como o principal responsável pela resolução dos problemas coletivos. Contudo, a resiliência de uma sociedade não depende apenas das instituições públicas. Depende também dos seus cidadãos: da capacidade de compreender os riscos, agir com responsabilidade, ser solidário e colaborar com os outros.

Vivemos tempos de incerteza. Aquilo que parecia improvável, ou até impossível, pode acontecer. As crises sucedem-se com rapidez, cruzam-se e amplificam-se mutuamente. Conflitos internacionais, fenómenos meteorológicos extremos, secas prolongadas, incêndios, ciberataques, transformações tecnológicas aceleradas e um mundo profundamente interligado, onde acontecimentos distantes produzem consequências imediatas no nosso quotidiano, fazem parte de uma realidade que parece avançar mais depressa do que a nossa capacidade de a compreender.

Uma cidadania forte começa pela informação. Num mundo cada vez mais digital, onde a desinformação circula à velocidade de um clique, torna-se essencial desenvolver espírito crítico. As redes sociais democratizaram o acesso à informação, mas também facilitaram a propagação de notícias falsas, teorias da conspiração e discursos de ódio. Nunca foi tão fácil manipular perceções, alimentar polarizações ou enfraquecer a confiança nas instituições. Defender a democracia exige cidadãos capazes de distinguir factos de opiniões, verdade de propaganda e informação de manipulação.

Vivemos igualmente numa sociedade cada vez mais conectada digitalmente, mas muitas vezes mais isolada do ponto de vista humano. O enfraquecimento dos laços comunitários, o aumento da solidão e a redução da participação cívica fragilizam a nossa capacidade coletiva de enfrentar dificuldades. A cidadania exige pertença. Exige reconhecer que fazemos parte de algo maior do que nós próprios e que o bem-estar individual depende também da força da comunidade.

É neste contexto que o associativismo assume uma importância fundamental. As associações culturais, recreativas, desportivas, sociais ou humanitárias são verdadeiras escolas de cidadania. Nelas aprendemos a trabalhar em conjunto, a assumir responsabilidades, a respeitar diferenças e a construir projetos comuns. São também espaços onde se criam laços de amizade, solidariedade e entreajuda, fortalecendo o sentimento de pertença e o amor à terra.

Importarmo-nos com os outros e com aquilo que se passa à nossa volta, cultivar a empatia e a solidariedade, continua a ser tão importante como sempre foi. A ideia de que cada um pode viver fechado na sua própria bolha é uma ilusão. Mais cedo ou mais tarde, os problemas que hoje afetam apenas alguns acabam por nos atingir a todos.

Num mundo marcado pela incerteza, a cidadania deixa de ser apenas um direito para se afirmar também como uma responsabilidade. Prepararmo-nos para o futuro não significa adivinhar o que vai acontecer, mas construir sociedades mais informadas, coesas, participativas e resilientes. Porque, perante as crises que inevitavelmente surgirão, a nossa maior força continuará a ser a capacidade de sermos solidários e de agirmos em conjunto.