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Sérgio Negrão

Vereador do PS na Câmara Municipal de Cantanhede

No tempo da festa, o dever de olhar mais longe: e o Hospital de Cantanhede?

Vivemos dias de festa. A EXPOFACIC voltou a abrir portas e, com ela, Cantanhede volta a afirmar-se. Não só na agricultura ou no comércio, mas sobretudo naquilo que melhor nos define, uma força associativa e comunitária que poucos concelhos do país conseguem igualar. São os dias em que nos reconhecemos inteiros, feitos de voluntariado e de gente que dá o seu tempo para que a festa aconteça. Celebro-a com todos.

Mas uma comunidade que sabe festejar em conjunto tem também o dever de pensar em conjunto. E há assuntos que não deviam pertencer à trincheira da divergência, mas ao chão comum onde nos encontramos, seja qual for a cor com que votamos. A saúde é o primeiro deles. Entre nós, tem um nome próprio, Hospital Arcebispo João Crisóstomo.

Escrevo porque as notícias que nos vão chegando, embora discretas, são de séria preocupação. O Estado retomou a passagem de hospitais do Serviço Nacional de Saúde para a gestão das Misericórdias. Está assinada a entrega do Hospital de São João da Madeira, com um pagamento anual à respetiva Santa Casa na ordem dos catorze milhões. Segue-se, em negociação, o de Santo Tirso. E há precedente, o de Anadia, Fafe e Serpa, entregues há uma década. A União das Misericórdias não escondeu a vontade de alargar o modelo. O Estado continuará a suportar a maior fatia da despesa. Ficámos a saber como. Falta saber para quê.

Que fique claro o que não está em causa. Não está em causa a dignidade das Misericórdias, instituições com mais de quinhentos anos, o braço solidário onde o Estado, sozinho, não chega. O que está em causa é a falta de transparência do processo e uma conta que teima em não fechar. O Estado mantém-se a financiar a maior parte da operação e paga, ainda por cima, à Misericórdia pela prestação. E nada garante que esses serviços não venham a ser executados por uma unidade privada da praça, subcontratada mais adiante. Onde está a poupança? O estudo que devia prová-la, prometido há mais de um ano, nunca foi tornado público. Pedir confiança sem mostrar as contas é pedir muito, sobretudo quando o que está em jogo é a saúde de um povo.

Chego à pergunta que nos importa. Seguirá o Arcebispo João Crisóstomo o mesmo caminho?

Falo do hospital a que muitos chamam, com carinho, o mais pequeno do país, e que por isso mesmo é o mais próximo, com o seu internamento e convalescença, as suas ligações ao CHUC e ao IPO e os estágios da Faculdade de Medicina. Uma unidade que, ao longo dos últimos quinze ou vinte anos, recebeu investimento público avultado. É património afetivo de Cantanhede e de Mira, de Arazede e das freguesias que a ele acorrem. Sei que a génese do hospital se cruza com a Misericórdia local, pelo legado do Arcebispo, e digo-o sem receio. Mas uma coisa é a raiz histórica, outra é entregar hoje a terceiros uma unidade reconstruída com o dinheiro de todos, e ainda pagar por isso. Devolver o quê, e a quem?

Há também uma memória que não devemos calar. Já houve, neste concelho, quem tivesse de erguer a voz para manter o hospital em mãos públicas, com recomendações na Assembleia da República que atravessaram partidos. Estaremos a regressar, sem darmos por isso, a esses tempos, a ter de salvar outra vez o nosso hospital?

Deixo as perguntas em cima da mesa. Que pensam os nossos responsáveis políticos sobre estas entregas à União das Misericórdias? Que pensam sobre o futuro do Hospital de Cantanhede quem tem o dever de decidir e o direito de ser ouvido, dos autarcas aos profissionais de saúde, das coletividades aos utentes? E há uma resposta que não pode faltar. A Câmara de Cantanhede, de maioria social-democrata, já tomou no passado posição contra a entrega do hospital à União das Misericórdias. Ora a política nacional que agora reabre a porta é conduzida por um Governo do mesmo partido. Mantém-se a posição de ontem? Está o executivo disposto a defender o nosso hospital perante o seu próprio Governo, ou preferirá o silêncio?

Não peço alarme. Peço transparência, e peço-a antes de qualquer acordo assinado, porque depois de assinado o barro já secou. Que se publique o estudo. Que se explique a mais-valia. Que se garanta, por escrito, que o hospital continua público, no SNS, com acesso livre, e que nenhum euro do esforço de todos é entregue sem contrapartida a quem aqui vive.

O mesmo espírito que ergue a EXPOFACIC, o do trabalho partilhado pelo bem comum, é o que deve erguer-se na defesa do que é essencial. Festejamos bem porque nos sabemos unir. Saibamos unir-nos também nisto. Enquanto vereador, assumo o compromisso de trazer de novo este assunto às reuniões quinzenais do executivo. Não como bandeira de uns contra outros, mas como causa de todos.
Passada a festa, fica o dever. E, com ele, uma pergunta que não se cala. E o Hospital de Cantanhede?