Em agosto de 1945, uma bomba atómica foi lançada sobre Hiroxima. Setenta e oito mil pessoas perderam a vida instantaneamente sob uma tempestade de fogo e radiação. Naquele momento, no fim da Segunda Guerra Mundial, a Humanidade aprendeu de uma vez por todas que tinha a capacidade de se autoextinguir. Não por acidente ou erro de cálculo, mas por escolha delibera-
da.
E depois dessa escolha? Construímos mais. Muito mais. Arsenais nucleares capazes de aniquilar o planeta várias vezes. Surgiu então uma nova palavra corriqueira que se tornou doutrina política durante a Guerra Fria, a “dissuasão”: “Se todos tivermos bombitas, ninguém as vai usar”. O princípio garante a paz através da ameaça permanente de extinção total.
Decorridas quase oito décadas, a retórica bélica regressou ao discurso público. Presidentes e autocratas falam casualmente de armas táticas como se fossem artilharia comum. São exatamente as mesmas figuras que controlam os gatilhos de nove potências nucleares, perdem a paciência em redes sociais e agem por impulso. O perigo nunca saiu da mesa, apenas o empurrámos para um canto escuro enquanto fingimos que a normalidade persiste.
Hiroxima não foi uma lição. Foi um aviso extremo que os nossos ouvidos surdos continuam a ignorar.
