Chegou agosto e a Volta a Portugal voltou a percorrer o país. Passou pelas nossas terras, mostrou paisagens, juntou pessoas nas bermas e levou animação a um Portugal que tantas vezes fica longe dos grandes acontecimentos. O ciclismo tem essa capacidade extraordinária de aproximar o desporto das pessoas. Não há estádio, não há bilhete, não há bancada. Há a rua, que é de todos!
Mas este ano a festa ficou marcada pela tragédia. O ciclista britânico Finlay Tarling, de 19 anos, perdeu a vida na sequência de um acidente. Uma sucessão de erros e uma tragédia que não deveria ter acontecido. Uma mãe e um pai perderam um filho e ficaram com uma dor para toda a vida.
Não quero discutir este acidente, as suas circunstâncias ou responsabilidades. Quero falar das muitas mortes desnecessárias que continuam a acontecer nas nossas estradas. Mortes que se tornaram tão banais que deixaram de ser notícia. Já não têm direito à primeira página. São apenas mais um número numa estatística que rapidamente esquecemos.
E os números deveriam incomodar-nos.
Todos os anos morrem cerca de 650 pessoas nas estradas portuguesas e mais de 2.500 ficam gravemente feridas. É uma dimensão assustadora. Durante os 13 anos da Guerra Colonial morreram cerca de 10 mil militares portugueses, uma média próxima de 750 por ano. Aceitámos como intolerável a morte numa guerra, mas parecemos resignados perante uma contabilidade anual quase semelhante nas nossas estradas.
Entre 2022 e 2024, cerca de 25 mil utilizadores vulneráveis — peões e ciclistas — estiveram envolvidos em acidentes com vítimas. Morreram 421 e 1.626 ficaram gravemente feridos.
Porque, na estrada, não somos todos iguais.
Dentro de um automóvel temos uma estrutura metálica, cintos, airbags e inúmeros sistemas concebidos para nos proteger. Um ciclista tem um capacete. Um peão nem isso. Uma criança é imprevisível, um idoso pode demorar mais alguns segundos a atravessar e uma pessoa com mobilidade reduzida pode não conseguir afastar-se a tempo. A sua fragilidade obriga-nos a ser mais cuidadosos, não menos pacientes.
Talvez nos tenhamos habituado demasiado à estrada. Conduzimos todos os dias e esquecemos que conduzimos uma máquina com mais de uma tonelada, capaz de matar num instante. Irritamo-nos com quem circula devagar. Ultrapassamos porque não queremos perder 30 segundos. Passamos demasiado perto de uma bicicleta porque não queremos esperar. Aceleramos porque conhecemos aquela estrada.
Olhamos para o telemóvel porque são apenas dois segundos. Mas dois segundos podem ser uma vida.
Quando pensamos em fazer alguma coisa pelos outros, imaginamos grandes gestos: ajudar alguém, fazer voluntariado, contribuir para uma instituição. No entanto, a estrada oferece-nos todos os dias uma das formas mais simples de cuidarmos dos outros: não colocarmos a sua vida em risco.
Abrande quando passa por um ciclista. Dê-lhe espaço quando ultrapassa — pelo menos 1,5m. Pare na passadeira. Tenha paciência com o idoso que atravessa devagar. Espere pela criança cujo comportamento não consegue prever. Não pegue no telemóvel.
E, quando estiver com pressa, lembre-se de uma coisa muito simples: a nossa pressa nunca é mais importante do que a vida do outro.
Podemos chegar dois minutos mais tarde. Podemos perder uma ultrapassagem. Podemos esperar atrás de uma bicicleta durante algumas centenas de metros. O outro é que não pode voltar a casa se nós errarmos!
