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Armando Humberto Pinto

Professor Catedrático da Universidade de Aveiro

O rumo das coisas

Não sou, por natureza, pessimista. Contudo, a atual situação sociopolítica europeia deixa-me, no mínimo, apreensivo. Chegámos a um ponto em que os Estados revelam dificuldades crescentes em assegurar, direta ou indiretamente, serviços essenciais como a habitação, a saúde, a justiça e a educação.

Por toda a Europa assistimos a manifestações de descontentamento, algumas particularmente violentas, como em França. São expressões de uma frustração crescente com o rumo das coisas. E talvez o mais preocupante seja o sentimento, sobretudo entre os jovens, de que o futuro lhes reserva menos oportunidades e uma qualidade de vida inferior à das gerações anteriores.
Será esta perceção inteiramente justa? Provavelmente não. A vida das gerações passadas esteve longe de ser um mar de rosas. Foi marcada por dificuldades, sacrifícios e privações que hoje tendemos a esquecer.

Mas a política, tal como a vida, também é feita de perceções. E quando uma geração deixa de acreditar que poderá viver melhor do que a anterior, alguma coisa de muito importante se perde: a esperança no futuro.
Na China, onde muitos jovens enfrentam condições de vida difíceis, persiste a expectativa generalizada de que a próxima geração viverá melhor do que a dos seus pais. Esta confiança no futuro é um poderoso motor de desenvolvimento e progresso, que parece estar a deixar de existir na Europa.

A esta crise de expectativas junta-se uma crise de liderança e de comunicação política. Os nossos dirigentes parecem ter cada vez mais dificuldade em explicar as suas decisões, e transmitir uma visão mobilizadora para o futuro. Sem um rumo capaz de dar sentido aos sacrifícios do presente, torna-se difícil construir o futuro.
Em 1948, Claude Shannon publicou um dos trabalhos científicos mais influentes do século XX, A Teoria Matemática da Comunicação. Demonstrou matematicamente como o ruído interfere na transmissão da informação e condiciona a capacidade de comunicação.

Nunca tivemos tanta informação disponível, mas também nunca estivemos expostos a tanto ruído. Nas redes sociais e nos canais televisivos, a informação mistura-se frequentemente com entretenimento, opinião, propaganda e desinformação. O que importa já não é necessariamente esclarecer, mas captar audiências, provocar emoções e alimentar polémicas. Temos cada vez mais informação, mas não necessariamente mais conhecimento.

Este ambiente constitui um terreno fértil para a polarização, o radicalismo e as soluções políticas simplistas. Quando desaparece a confiança nas instituições, cresce a tentação de acreditar em quem promete respostas fáceis para problemas complexos.

As próximas eleições em França serão um teste importante à capacidade das democracias europeias para responderem a este descontentamento. O que ali acontecer terá consequências que ultrapassam largamente as fronteiras francesas.

Espero que a Europa saiba encontrar um caminho de renovação, paz e solidariedade. Que sejamos capazes de recuperar a confiança nas instituições e, sobretudo, de devolver aos mais jovens a convicção de que vale a pena acreditar no futuro.

Porque há uma coisa que a história nos deveria ter ensinado: por muito difícil que o presente seja, as coisas podem sempre ficar muito pior. Cabe-nos, por isso, assumir com responsabilidade o nosso destino coletivo, dar prioridade ao que verdadeiramente importa e compreender que, para além do «eu», existe também o «outro», de quem temos igualmente a responsabilidade de cuidar.