Escrevo este artigo na tarde de dia 2 de outubro. Ao ritmo a que estes assuntos correm, é provável que muito do que aqui escrevo esteja desatualizado quando chegar ao leitor.
Antes de ir ao título da crónica desta semana, quero voltar a relembrar que o caso mais grave da história da Assembleia da República desde o cerco à Constituinte continua sem desenvolvimentos relevantes e sem o alarido geralmente criado pelos servidores de André Ventura. Nem pelo próprio. E não por falta de oportunidade, dada as dezenas de vezes que Ventura foi entrevistado em exclusivo pelas televisões desde o dia 28 de julho. Reitero: não é possível desvalorizar o caso. O assalto ao gabinete de um partido dentro do Parlamento é gravíssimo e um atentado à democracia. Simulá-lo é tão ou mais grave.
Entretanto, o tema sobre o qual mais tenho lido e que me deixa mais inquieto é a Inteligência Artificial. Por um lado, na vertente mais corrente e acessível – o Chat GPT ou o Claude – todos, pessoas e empresas, têm de saber usar estes agentes do ponto de vista da ferramenta. Era capaz de sugerir às autarquias da Bairrada – talvez em vez de gastar tanto em festas, bailaricos e “milhões” de micro associações – que investissem em proporcionar licenças e/ou formação em IA a uma seleção de empresas da região. Por exemplo, há excelentes escolas profissionais na região, algumas com dificuldades em ter alunos. Seria um investimento com retorno económico e social a vários níveis e a curto, médio e longo prazo.
Mas depois há a outra Inteligência Artificial. Aquela que vemos nas notícias que é capaz de vir a encontrar a cura para o cancro. Que conseguiu resolver um problema matemático com décadas (apesar de não sabermos como o resolveu). Mas que também desobedece a comandos de segurança, que foge do espaço confinado para hackear empresas. Que substituirá um conjunto alargado de empregos a uma velocidade – friso a velocidade – a que os Estados não vão conseguir responder. Que em consequência vai aumentar os desempregados, que vão ter de receber apoio social dum Estado que terá menos receitas pois as máquinas não pagam TSU e as empresas de IA são taxadas nos EUA e na China. A IA do paradigma dos clips de papel (Nick Bostrom, 2003): a uma máquina dá-se a instrução para fabricar o maior número possível de clips de papel. Será tão eficiente que vai usar todos os recursos do planeta para criar mais e mais clips, matando toda a humanidade no processo.
Temos Elon Musk a dizer em entrevista ao The Economist que acredita que há 20% de probabilidade da IA nos matar a todos, mas que o seu desenvolvimento é uma inevitabilidade. Dario Amodei, dono da Anthropic (Claude) já nos fez notar várias vezes que está preocupadíssimo com a falta de controlo de agentes de IA em certas situações. A primeira encíclica do Papa Leão XIV assume que não é possível parar o vento com as mãos e pede que a sociedade reflita e atue sobre a forma como esta tecnologia nos vai afetar.
E depois temos Trump…
Finalmente sobre Cristiano Ronaldo. Espero que o título da crónica o tenha feito ler até ao aqui. Quanto ao resto… é um futebolista ex-jogador da seleção, uma marca comercial, um símbolo de Portugal através do desporto. Para quem gosta de futebol, foi incrível enquanto foi bom. Ainda bem que veio do Sporting e que é português. Traiu-se. Obrigado pelos bons momentos.
