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Armando Humberto Pinto

Professor Catedrático da Universidade de Aveiro

Ronaldo e a Lei da Vida

Tal como a lei da gravidade faz cair as pedras, também a lei da vida é implacável: nascemos, crescemos, atingimos o nosso apogeu, envelhecemos e acabamos por morrer. Poderia ser diferente? Talvez. É injusto? Talvez. Mas é assim. E não há talento, poder ou fortuna que nos permita escapar.

Todos gostaríamos que Ronaldo durasse para sempre, que aquele jogador que, durante sete anos consecutivos, marcou mais de 50 golos por ano, chegando aos extraordinários 69 golos em 2013, continuasse a fazê-lo. Porque nos deu alegrias imensas e porque o futebol é a mais importante de todas as coisas que não têm importância nenhuma!

Cristiano Ronaldo só pode merecer a nossa admiração. Um menino nascido na Madeira, numa família humilde, marcada por dificuldades, que, através de um talento excecional, de uma vontade inabalável e de uma capacidade de trabalho invulgar, se tornou num dos melhores futebolistas de todos os tempos. Conquistou praticamente tudo e mostrou-nos que podemos ser tão bons ou melhores que todos os
outros.

Ronaldo contrariou todas as probabilidades e o destino que parecia reservado àquele menino madeirense. Mas há um adversário que nem ele consegue derrotar: o tempo. Aos 41 anos, continua a competir, o que por si só é extraordinário. Contudo, já não é aquele que marcava 50 golos numa época, ultrapassava adversários e decidia jogos quase sozinho. Continua a amar o jogo, mas já não consegue fazer tudo aquilo que fazia. E por muito que nos custe, essa é a realidade.

Aos 41 anos não temos o corpo dos 25. Podemos ganhar experiência, inteligência e sabedoria, mas perdemos inevitavelmente outras capacidades.
Aceitar isso não diminui a grandeza de Ronaldo. Pelo contrário, talvez seja o último e mais difícil desafio da sua carreira: compreender que não precisa de continuar a ser o melhor para permanecer entre os maiores de sempre.

Mas por que raio é tão difícil aceitar que envelhecemos?
Talvez porque vivemos numa sociedade obcecada pela juventude, pelo sucesso e pela competição. Habituámo-nos a confundir o valor das pessoas com os resultados que alcançam, com o poder que exercem e com a importância que os outros lhes atribuem. E quando deixamos de ser indispensáveis, receamos deixar de ser importantes.

Mas será que valemos apenas aquilo que ainda conseguimos fazer?
Envelhecer não significa tornar-se descartável. Uma sociedade que não valoriza os mais velhos desperdiça uma das suas maiores riquezas: a experiência de quem já viveu. Os erros que cometemos, os sucessos que alcançámos, as alegrias e as desilusões ensinam-nos coisas que nenhum livro consegue ensinar.

E essa experiência é demasiado valiosa para ser desperdiçada. Porque partilhar experiências e ajudar outros a crescer pode ser tão importante como as vitórias que conquistámos.
Todos teremos, mais cedo ou mais tarde, de aceitar que há coisas que já não conseguimos fazer, papéis que devemos abandonar e novas gerações que têm direito ao seu espaço. E isso não é uma derrota. É simplesmente a vida a acontecer.

Envelhecer é também ganhar experiência, sabedoria e a capacidade de compreender aquilo que realmente importa. É perceber que o nosso legado não se mede apenas pelas vitórias que alcançámos, mas sobretudo por aquilo que deixamos aos que vêm depois de nós.
Essa é a lei da vida. E nem os predestinados conseguem escapar-lhe.