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Valdemiro Pereira

Economista/Conselheiro

Sementes de coexistência

O meu hino à Natureza, particularmente em relação ao valor intrínseco da semente, surgiu aos meus cinco anos de idade quando semeei não mais de um metro quadrado de feijões. Fui observando e acompanhando as diferentes fases ou cambiantes, ao longo do seu crescimento:

  • do brotar e libertar-se da terra; • da formação e crescimento das suas plântulas; • do serpentear das suas gavinhas; • da formação e crescimento das vagens; • da maturação e da deiscência das novas sementes.

Desde aí, não mais deixei de respeitar os que produzem bens alimentares. Também eu, em simultâneo e ao longo das minhas atividades produtivas, tenho produzido alguns deles facto que consubstancia um dos meus vitais prazeres. Esta postura, digo eu, atenuará o ímpeto generalizado do consumismo. Convenhamos: é-se tanto menos consumista quanto mais se está ocupado ou empenhado no fazer, no produzir e no guardar. Já a semente de sésamo (Sesamum indicum L.) era um nutritivo e medicinal sustento no antigo Egipto. Em tempos remotos, a semente da quinoa (Amaranthus caudatus Willd.) era um nutritivo e medicinal cereal andino.

Por alguma forte razão, tão ínfimas sementes, entre muitas e outras, saltaram fronteiras sendo produzidas e consumidas noutros quadrantes. Há antevisões, perante o cenário de incertezas e instabilidades quanto ao futuro, de que o habitual consumidor de bens alimentares venha a ser produtor – consumidor, criando, ele próprio, no todo ou em parte, os bens alimentares para a sua sobrevivência. Há países da União Europeia cujos cidadãos não se curvam para apanhar do chão essas moedas negras, até 5 cêntimos! Não respeitam ou avaliam o custo unitário de produção ou fabrico destas moedas que é bem maior do que o seu valor intrínseco ou facial. Por outro lado, a acautelar o futuro, em países da mesma União, bem mais ricos do que o nosso, há famílias com a sua despensa bem protegida e recheada de bens alimentares – os menos perecíveis!

Relembremos os mecanismos de que a Natureza está dotada: do simples gesto, não de levantar, mas sim de lançar uma só semente à terra, resultará uma produção exponencial de muitas centenas e até de muitos milhares de sementes! Nesta esteira, foi criado, recentemente, a nível planetário, um ‘cofre forte’ no permagelo do extremo norte da Noruega. Esta construção ártica, a que se convencionou chamar “Arca-de-Noé das Sementes”, está implantada no seio de uma montanha bem acima do nível médio do mar e a 120 metros de profundidade. Tem dimensão para comportar até 2 biliões de sementes de todo o mundo a 18°C negativos.

Registe-se que já desde 1977, salvo as devidas proporções e condições, foi criada em Portugal, semelhante reserva, através do Banco Português de Germoplasma Vegetal de Braga, que protege a viabilidade de sementes, nomeadamente, de frutas, de leguminosas e de milhos. Desde que o Homem se conhece, ela é tida como bem essencial, um ser mágico até!

Posfácio
Foi este o meu primeiro texto, publicado há 16 anos, sobre a minha primeira sementeira, de há 80 anos, em Vilarinho do Bairro, Anadia.
Considero-o uma bem guardada relíquia pessoal. Um marco indelével do início desta minha tão longa, pertinaz e tortuosa caminhada pela ascensão da Semente a Património Nacional e Mundial da Humanidade. SEMENTE – arma nuclear, viva, essencial, vital e benigna que, quando apontada às fomes, nunca falhará!