No dia 5 de outubro, não de 1910, mas de 1143, dois primos encontraram-se em Zamora para resolver à conversa aquilo que ameaçava acabar à batatada, como acontece nas melhores famílias: de um lado Afonso VII, rei da Galiza, Castela e Leão, que se achava imperador da Hispânia, do outro Afonso Henriques, Conde de Portucale, que ainda era só conde, mas já se andava a chamar “rei” e a fazer incursões pela Galiza como quem não quer a coisa.
Com a guerra à porta, lá apareceu o cardeal Guido de Vico, enviado do Papa, a fazer de árbitro, e o acordo foi mais ou menos este: Afonso VII, provavelmente a pensar em desfazer o negócio mais tarde, reconhecia-lhe o título de rei e Afonso Henriques, por sua vez, jurava-lhe vassalagem, o que era como receber a coroa com talão de troca.
Claro que ainda não era independência, porque o que Castela dava, Castela podia tirar, e o nosso primeiro rei, que era bom de espada, mas ainda melhor de lábia, tratou logo de se declarar também vassalo do Papa, pelo sim pelo não, e esperou décadas, sempre de olho no primo, com paciência de santo, pela bula Manifestis Probatum, em 1179. Aí sim, lá conseguiu a independência que sempre desejou e o melhor é que nunca precisou de se pôr à varanda de ninguém a gritar “viva o reino”.
Bruno Santos
Professor de História
