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Manuel Armando

Padre

Eh! Quanto vale(mo)s?

Parece incrível haver tanta discrepância numa sociedade educada e organizada.

Entendo bem as diferenças de toda a casta, entre as pessoas. Umas brancas, outras, amarelas ou negras, sem deixar de referir os peles vermelhas e quejandos; alguns, mais inteligentes ou espertos, outros, um pouco tapados; uns, mais bonitos, outros, menos bem apresentáveis; uns bastante familiares, outros, sorumbáticos ou, mesmo, antipáticos; uns, reservados, outros, muito atiradiços; uns quantos, trabalhadores, enquanto outros negligentes e molengões; alguns, lestos, outros, lesmas.

É uma mescla de características que nos distanciam socialmente, moral e espiritualmente, não omitindo os letrados, diante dos que não destrinçam uma letra de um comboio. Ainda alguém tem a consciência tranquila, ao passo que alguns outros andam sempre tocados a fogo.

Na verdade, é um nunca acabar de diferenciações que até levam o mundo a equilibrar-se. Pelo menos, parece assim.

Razão teve São Paulo, na sua missiva aos cristãos de Corinto, enquanto lhes lembrava que cada pessoa é possuidora de carismas próprios, não podendo nem devendo ninguém substituir o seu semelhante nalguma tarefa, supostamente exigida na comunidade.

«Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro. E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo, profetas; em terceiro, mestres; em seguida, há o dom dos milagres, depois o das curas, o das obras de assistência, o de governo e o das diversas línguas. Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Fazem todos milagres? Possuem todos o dom das curas? Todos falam línguas? Todos as interpretam? Aspirai, porém, aos melhores dons» (1ªCor.12/27-35).

Aqui, é certo, o facto de apontar-se a diversidade de carismas e qualidades sugere um apelo ao empenhamento individual na construção de uma humanidade mais justa com a interacção de todos entre si.

Só cada um, que põe em acção as suas capacidades inatas ou adquiridas, vem a contribuir para a elaboração de um mundo mais equilibrado e sereno.

O indivíduo vale pelo que faz e nem sempre por aquilo que tem ou ganha.

Estou a tentar arranjar uma resposta conveniente para o meu desapontamento perante o facto de, nunca, ninguém me ter abordado no sentido de uma possível compra ou trespasse da minha pessoa.

Por essa razão, fico-me a imaginar que não valho mesmo nada.

No meu tempo de criança, algumas vezes, ouvia minha mãe dizer que aquela vitelina que estava lá no curral – mesmo pertencendo a um dono de fora – tinha sido orçada em “nota e meia ou duas notas”. Era o código decifrador do valor real do dinheiro que deveria servir à venda da cria para abate e já, nessa altura, tal preço não dava quase para um fardo de palha ou erva de sustento do bicho.

Porém, as épocas vão decorrendo e aqueles “papeis” que movem os indivíduos estarão mais que podres e apenas poderão ser utilizados em colecções.

Ouço, hoje, afirmar que os negócios são, em quaisquer tempos, muito semelhantes, mas há quem embrulhe, nesses tais “papeis”, rapazes de idade ainda tenra que olham mais que fascinados pelas qualidades adquiridas e se dizem valer milhões. Arranjam-se empresários, advogados, tutores e outros que lhes asseguram um lugar, mesmo que, nisso, tenham de romper com a privacidade pessoal ou familiar de alguém.

E há uma fumarada que sobe nos ares, tanto quanto se elevam as ofertas mais chorudas por quem dá uns pontapés num esférico de couro.

Ora, tantos foram já os que eu dei nas pedras e na vida, mas ficaram sem qualquer remuneração. E até trocava, com algum agrado, a minha jorna de um mês por um minuto de chutos na bola de muitos desses artistas do jogo.

Mas, voltemos aos valores exorbitantes por que são transaccionados tantos jovens, além-mundo, num acinte social contra milhões de trabalhadores que continuam explorados e privados do seu justo salário, incapazes de sustentar uma família, mesmo com a modéstia obrigatória.

A carne humana está deveras cara nos mercados – leia-se talhos – internacionais, sobretudo. As compras e vendas atingem, na realidade, somas astronómicas, com a bênção passiva e conivente das autoridades que vigiam a cobardia do tabelamento de um quilo de batatas, permitindo, todavia, que o outro “conduto” ultrapasse ofensivamente tudo no mundo, para pisar sob pés megalómanos, as bocas esfomeadas deste nosso universo humano.

Ouso meditar sobre a minha pequenez e correspondente valia irrisória, porque não chuto a bola nem vou atrás de quem corre ou tem mais bens do que eu.

Mas, esperem. Agora me saiu do subconsciente a certeza com que minha mãe me assegurou a serenidade do ser e da vida.

Quando alguém lhe dizia, brincando: «vende-me esse menino», logo ela afirmava com muita ternura: – «Meu filho, nunca teria um preço» e, afagando-me, segredava no meu ouvido, mesmo sem eu entender ainda: «não haveria dinheiro nenhum no mundo que te pagasse. És tudo para mim».

Hoje então entendo e quero, por isso, eternizar a cotação que foi fixada por minha mãe.

Tenho, na vida, um valor incalculável e Deus é o seu pagador no coração maternal.