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Manuel Armando

Padre

Ora, vamos lá para a greve da fome

Há ideias, sistemas, procedimentos, comportamentos, situações concretas, imaginações, campanhas e uma profusão de outras mais coisas e pessoas, que me causam embaraços e incómodos pelas interrogações sérias diante das quais, grande parte das vezes, sinto uma incapacidade tremenda por não encontrar alguma resposta condigna ou adequada a essas inquietações, o que me leva a um mal-estar interior que chega mesmo a acusar-me também das possíveis omissões e silêncios pessoais.

Os passos do mundo vão sendo a descer por uma escada fria e tosca, complicadamente insegura, deixando todos quantos se obrigam a ter de utilizá-la num misto de medo e desejo de fuga para longe do universo em crescente desilusão e instabilidade.

Somos nós todos a construir a fragilidade num ambiente, onde ninguém parece sentir-se bem, como ainda a ignorar a existência do esconderijo para qualquer refúgio satisfatório.

Convenhamos, contudo, que a apatia de uns será o suporte e rampa de lançamento para grandes movimentos que se apresentam de armas e bagagens, com picaretas, pás e alviões, revolvendo ideias apagadas e fazendo-as tomar parte activa na derrocada final em tempo imprevisível.

E estas vicissitudes ultrapassam épocas e pessoas, instalando-se comodamente como se fora o caso das coisas mais banais e comuns, de modo a tornarem-se moda e uso que adormecem as consciências e acabam por acomodá-las à preguiça de pensar e, pior ainda, de agir.

Não sou professor. Já o fui, em tempos atrás e durante vários anos, mas o meu ramo era diferente do de ensinar a escrever, ler ou interpretar a língua pátria. Todavia, tive mestres – e exigentes que se tornavam – a abrir terra intragável e dura da aldeia, donde eu provinha e onde o vernáculo representava, na verdade, a linguagem popular com o significado que o povo simples e iletrado lhe dava.

Havia muitos termos que, se os ouvi alguma vez, não faziam parte do nosso léxico usual conhecido. Muitos anos depois, porém, fui escutando e matutando sobre o sentido deles.

A título de exemplo curioso, aponto a palavra ruidosa “greve” e a outra, ainda mais sonante, “fome”.
Juntando as duas, temos então a “greve da fome”. Ora, aqui, se dependesse de mim só a vida da sociedade, eu partiria a convidar a todos para que enfileirassem nesta prática.

Realmente, se greve é «conluio de pessoas que se recusam a trabalhar ou a comparecer onde os chama o dever enquanto não sejam atendidas em suas reclamações» parece claro que “greve da fome” consiste em comer bem e o suficiente para gozar de uma vida sadia feliz, fugindo do flagelo que mata.

Assim, e pensando no que se passa em tantos sítios, não tenho realmente pena e dor por aqueles e aquelas que possuem razoáveis meios de sustento e o põem de lado para dar nas vistas. Doem-me, sim, todos quantos querem e não têm. Estes sofrem a fome pois não conseguem os meios de se sentarem a uma avantajada mesa porque, esquecidos da sociedade em geral, procuram trabalho e não o encontram como também podem estar impedidos por falta de saúde ou idade avançada, causas viáveis e compreensíveis.

Fazer greve ao trabalho, não comendo por vontade própria, é a exibição de um luxo escusado. Isso, nem por promessa.

Será mais importante e proveitoso pôr de parte as sopas de que se prescinde voluntariamente e darem-nas a quem, numa comunidade injusta, sente as paredes do estômago a colarem-se, umas nas outras.
Talvez, desta forma, o mundo possa vir a equilibrar-se melhor.

Texto escrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico, por vontade expressa do autor