Assinar

Carlos Vinhal Silva

Anadiense

Passando pelos pingos da chuva

Há eventos do nosso quotidiano que acontecem quase sem notar. Apesar de serem dignos de notícias e peças jornalísticas, não pensamos demasiado sobre eles, encontram-se no papel e no ecrã e ali ficam, quietos e esquecidos, sem nenhum pensamento ou crítica adicional. Porém, esses acontecimentos, frequentemente, escondem valores que merecem uma reflexão profunda porque neles podemos ver, como espelho, o reflexo da sociedade e do mundo. Sejam temas que se inserem no seio da politica, da saúde ou desporto, tendemos a ficar apenas com uma perspetiva ao invés de procurar complementar essas informações através de outras fontes e especialistas e depois passá-las pelo indispensável crivo da razão.

Ora, este artigo é um artigo de opinião e deve ser tratado como tal. Não pretendemos que passe como uma opinião dissimulada com um caráter noticioso. É a isso que nos opomos neste texto que, a par das chamadas fake news, constituem uma prática abjeta contra a qual devemos travar uma árdua batalha. Porém, os recursos são escassos e devemos partir para esta guerra com cautela e inteligência, definir uma estratégia que consideramos eficaz e que não lese os direitos fundamentais daqueles contra quem lutamos. Por exemplo, acreditamos que cada qual tem o direito de expressar a sua opinião e manifestar, se for essa a sua vontade, a sua imbecilidade, pelo que o combate à desinformação deve ser realizado junto de quem a recebe e não de quem a emite, também pelas dificuldades naturais e acrescidas que terá quem se encarregar de dialogar com quem é ignorante. A chave para este problema somente a podemos encontrar junto da população comum, aqueles que recebem esses pseudo-factos e que são os principais responsáveis pela sua veiculação pública. É, indubitavelmente, mais fácil incutir um espírito crítico em quem não o tem (para isso servem algumas disciplinas que temos nos planos curriculares escolares, se estes forem bem aplicados) do que retirar a maldade de quem se julga superior aos demais pelo cargo ou posição social e ideológica ocupadas.

Apenas assim poderemos sair vitoriosos de uma guerra cujo fim não está ainda à vista. Abrir os nossos olhos seria um começo. Quando os abrirmos, o mundo afigurar-se-á também de uma forma diferente; quando abrirmos os olhos, poderemos também abrir os olhos aos demais; quando abrirmos todos os nossos, veremos o mundo como ele verdadeiramente é e poderemos mudá-lo de verdade. E aí, talvez, aqueles que até então pensávamos serem heróis passarão a ser cretinos e, assim, deixarão de passar pelos pingos da chuva da indiferença e da cegueira que, em nós, eles desejam que seja eterna.