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Manuel Armando

Padre

Vou – vamos – renovar o mundo

Dou por mim, quase inadvertidamente, a fazer uma simples retrospecção intelectual e psicológica da vida, nalguns variados aspectos cruciais que marcaram – e de que maneira – toda a minha existência.

As circunstâncias em que nasci, o meu crescimento até chegar ao chamado uso da razão, a entrada na Escola, a vida em família, a descoberta de amigos e companheiros, a aprendizagem de muitas coisas sem quaisquer propósitos assumidos, a minha idade de jovem com o voluntário afastamento físico de casa, aliviado pelas férias, as saudades sentidas, o encontro com novas pessoas, até então desconhecidas, mas, a breve trecho, abraçadas nos mesmos sonhos e quimeras humanas, duvidosas ou enganadoras.

Mais tarde, o tomar a verdadeira consciência do estado adulto, procurando descobrir o interesse positivo das lutas, com os seus sucessos ou desencantos e o começo da vida activa, entre gente mais experimentada que eu, em variados caminhos.

O compulsar as diferenças pessoais ou colectivas produzia um amadurecimento em ordem a tomar decisões sérias e tranquilas, enquanto aparecia, de peito feito, frente às intempéries de certas desilusões.

O facto de não desanimar perante a crueza da realidade é que nos dava o estatuto da maioridade de espírito, capaz de comparar algumas decisões tomadas, sobre as quais não havia qualquer desejo ou propósito de voltar atrás.
Reavivando o passado, reparamos em tantas vias, mal usadas para não dizer-se irremediavelmente perdidas.

Todavia, agora, já não há tempo para chorar sobre o leite derramado, mas assiste-nos o ensejo de admirar quanto de positivo fizemos com a ajuda formal da Família, da Escola, da Igreja, dos centros de estudo, da convivência entre pessoas mais amadurecidas no trabalho, na acomodação a assuntos tão complicados como rudimentares, entrando-se num sem-número de circunstâncias fortuitas e simples que se deparavam, com significado e constância, à nossa frente.

Hoje, porém, nos diversos momentos destas evocações, tomaríamos, de certeza, a deliberação de voltar atrás, se tal fosse possível. Assim seriam reparados bastantes danos que, certamente, causámos a nós mesmos e aos outros.

O nosso crescimento, mesmo agora, quando acompanhado de reflexão e desejo de melhoramento, é tempo formidável de recuperação de tantas coisas que nos desviaram, com frequência, da rota concreta de felicidade.
A descoberta de renovados modos no agir terão sido, em alguns casos, fruto das nossas “cabeçadas” na parede as quais produziram luz para a inteligência e capacidade de mudança.

No decurso do meu caminho, confesso, foram já inúmeras as ocasiões em que me acreditei imaturo ou menos prudente quanto deveria ser.

Houve ideais pensados que não atingi por inaptidão ou, para ser menos desagradável, infantilidade.

Ao longo do tempo foram-se esfumando utopias diante das janelas dos meus olhos, desiludindo-me, sobremaneira, a meio da jornada.

Incontáveis atitudes, tomadas no descuido, poder-se-iam ter evitado. As confrontações desafiadoras, frente a iguais ou a superiores em diferentes vertentes, não conduziram a lado nenhum.

Uma quantidade larga de acontecimentos e pessoas perfilavam-se, diante de nós, mas afastávamo-los de qualquer interesse. As ditas omissões causaram assim buracos na nossa personalidade, talvez tornada ferida de um mal sem cura.

Lembro de, quando estudante, no final de cada dia e, preparando um sono mais sereno, nos serem lembrados certos pontos importantes do nosso dia para fazermos exame de consciência e a “revisão de vida”.

Faço-o, também agora, num tom mais abrangente e reconheço, com alguma sensatez, quão frágil foi, tantas vezes, o meu procedimento pessoal.

Dou, como exemplo: – até ao dia presente, editei oito livros. Disso expresso prazer e vaidade, mas discretamente.

Contudo, relendo, com alguma atenção, quanto escrevi, faço-me crítico de mim próprio e fico com a certeza de que reformularia muito das crónicas ou poemas que concebi.

Porquê?!
Foram determinadas peças que, quando publicadas nos Jornais e Revistas, produziram engulhos em indivíduos que se enfureceram contra mim pela rudeza que usei para referir o que observava e parecia não concordar.
Aceito, hoje, que, nessa altura, existiriam razões para a discordância. Eu poderia ter dito o mesmo, mas noutras formas de expressão mais meigas, ainda que igualmente contundentes.

Todos temos sempre ocasião de, revendo os nossos critérios e gestos, irmos por caminhos novos mais atraentes.
Penso então como o mundo, começando pelo meu, será diferente se procurarmos encontrar respostas adequadas e justas para o que deveremos ser e fazer.

Auguramos que os indivíduos e as potências mundiais ainda se tornem, num futuro longe ou próximo, promotores, quase infalíveis, do bem-estar comum em todo o Universo.
Que não nos falhe a esperança.