A falta de amor no casal, associado a fatores como problemas financeiros e instabilidade social são o “rastilho” para o crescente número de casos de violência doméstica que se têm vindo a registar.
De acordo com o relatório anual 2011, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), 19 mulheres por dia foram vítimas de violência doméstica em Portugal, no ano passado, tendo-se ainda registado mais cinco homicídios do que em 2010.
Sobre os concelhos de Oliveira do Bairro e Anadia, o capitão Tiago Silva, do Destacamento Territorial da GNR de Anadia, confirmou a sua preocupação em relação a este flagelo, muito embora tenha consciência de que neste tipo de crime a atuação da GNR é sempre muito limitada: “praticamente se restringe à sensibilização e informação, pois ter um papel ativo para evitar a violência doméstica é quase impossível às forças de autoridade”.
Tiago Silva reconhece que o caso de Oliveira do Bairro é mais preocupante do que o de Anadia, em proporção (Anadia tem 29.142 habitantes e Oliveira do Bairro 23.028) e por apresentar um maior número de casos de violência doméstica denunciados. “Oliveira do Bairro, desde dezembro até ao mês de fevereiro, tem sofrido um aumento de casos denunciados, embora falemos de números pequenos”, diz. Em Oliveira do Bairro registaram-se quatro queixas no mês de fevereiro, enquanto que em Anadia foram três. “De janeiro a março, Oliveira do Bairro regista um pequeno acréscimo de quatro queixas e Anadia apenas três. Contudo, em março já estão registados dois casos em Anadia e um em Oliveira do Bairro”.
O militar defende que as dificuldades financeiras não são, por si só, motivo suficientemente forte para que a violência doméstica aconteça. “O principal problema é a falta de sentimento, de amor no casal. Ou seja, se um casal já está mal, já não vive feliz e a crise financeira e as dificuldades no dia a dia aparecem, são como que um rastilho” a que se podem associar outros fatores. Por isso, entende que “este tipo de violência só acontece quando a relação do casal já está deteriorada”.
As agressões físicas são as mais frequentes e são perpetradas por um agressor/homem à vítima, muitas vezes mulher ou namorada. As agressões acontecem sobretudo entre casais dos 25 aos 50 anos.
Tiago Silva aponta ainda que para além dos maus-tratos físicos associados a este tipo de violência, ela pode ainda ser perpetrada através de isolamento social, intimidação e ameaças, maus-tratos emocionais, verbais e psicológicos e ainda através do controlo económico.
Embora reconheça existirem muitos casos que não chegam ao conhecimento das autoridades, diz que a vítima de pouco tempo, jovem ainda, é mais rápida a denunciar porque não está tão traumatizada, assim como normalmente tem mais independência financeira. Já as vítimas de meia idade e idosas são mais renitentes a apresentar queixa, não só devido à educação diferente que tiveram, mais conservadora, mas porque o homem/agressor é visto como o chefe de família em relação ao qual a mulher é submissa. Por isso, diz que nestas faixas etárias a vítima, muitas vezes, já se encontra num estado de completo trauma. “Nessa situação traumatizante é fundamental o papel da vizinha, da amiga, que deve denunciar porque a vítima já não tem força, nem coragem para pedir auxílio pois está numa espiral de violência em que só vê como saída um final trágico, chegando ao ponto de equacionar pôr termo à própria vida por já não encontrar saída para a sua situação”, alerta, não deixando de sublinhar que quando o casal tem filhos menores, esta espiral de violência tem repercussões que podem afetar psicologicamente os filhos para toda a vida, já que, como explicou, uma criança que cresce neste meio pode tornar-se agressiva ou um potencial agressor.
A terminar, aquele responsável destaca que cada caso é um caso, assim como é preciso saber distinguir um caso de violência doméstica de um caso de quezília entre marido e mulher que não consubstancia um caso de violência doméstica. “Da mesma forma que um pai ou uma mãe dá uma palmada a um filho quando este se porta mal, não se pode dizer que estamos perante um caso de agressão ou de violência doméstica. Isso seria um absurdo e estaríamos a descredibilizar as boas regras morais e de educação. É preciso não cair em exageros.”

Catarina Cerca
catarina@jb.pt