Conheci o sr. Luiz Costa em fins de 1978 ou princípios de 1979, numa célebre reunião de técnicos e empresários vinícolas bairradinos, realizada no Restaurante Chicote, em Vilarinho do Bairro. Foi nesta reunião que apresentou a proposta de criação de uma Confraria na Bairrada, à imagem das Confrarias francesas, que ele bem conhecia.
A proposta foi aprovada e, de imediato, se deu início aos trabalhos preparatórios, de tal forma que em Junho de 1979 estava criada a Confraria dos Enófilos da Bairrada e em Outubro se realizava o primeiro Capítulo no Palace do Bussaco, no âmbito das Jornadas Vitivinícolas da Bairrada, que conduziram ao reconhecimento legal da denominação de origem Bairrada, em Dezembro do mesmo ano.
A organização destes eventos ficou centralizada na Estação Vitivinícola da Beira Litoral, onde o sr. Luiz Costa se deslocava quase diariamente, assim se forjando uma amizade e uma admiração que se manteve e reforçou durante mais de três décadas.
O eng. Manuel Silvestre dizia-me que Luiz Costa, enquanto estudou em Lisboa, passou mais tempo nos Museus do que nos anfiteatros de Agronomia. Na verdade, era um esteta, um apaixonado pelas artes plásticas, pela arquitectura, um colecionador de livros raros e de tudo quanto se relacionasse com o vinho e a sua amada Bairrada.
Dos muitos escritos que guardava, tirava cópias que enviava aos amigos, quase sempre acompanhadas de ideias e sugestões para novas iniciativas em prol da Bairrada.
Para além da fundação da Confraria dos Enófilos da Bairrada, dele nasceu idêntica iniciativa relativamente à Academia do Vinho da Bairrada. A maior parte das actividades destas associações levam a sua marca inconfundível, seja na concepção dos programas, seja até na elaboração das ementas (quase sempre pequenas joias de arte e bom gosto). A sua cabeça fervilhava de ideias e projectos. Mas sempre fugia ao protagonismo, sendo quase impossível convencê-lo a ocupar os lugares de maior destaque, que naturalmente lhe estavam destinados.
Admirador da viticultura francesa, frequentava assiduamente as reuniões das principais Confrarias gaulesas, como os Chevaliers du Tastevin. Em sua opinião, os vinhos franceses tinham uma imagem forte em todo o Mundo, devida não só à qualidade do trabalho vitícola e enológico, mas também, e sobretudo, ao apport que lhes acrescentavam poetas, pintores e músicos.
Luiz Costa granjeou a estima do mundo vinícola português, sendo o primeiro bairradino a receber o prémio Senhor Vinho, instituído pela prestigiada Revista de Vinhos. Na verdade, para muitos de nós ele era um Senhor, uma espécie de aristocrata sem brasão, um daqueles homens afáveis, serenos, ilustrados, que vão sendo cada vez mais raros nestes tempos de mediocridade e incultura para todos…
A sua magnífica casa da Quinta da Grimpa – construída com a companheira de sempre, sua esposa e prima, Maria Júlia -, uma das mais belas da região, esteve sempre ao dispor de importantes iniciativas de promoção da Bairrada. Por lá passaram celebridades mundiais, que não escondiam a sua admiração pela casa e pelas valiosíssimas colecções, todas relacionadas com o vinho (vidros, cerâmicas, pinturas, livros, saca-rolhas). Recordo-me de Jancis Robinson discursar num desses eventos, sublinhando o extraordinário requinte e bom gosto de tudo o que viu.
O espólio documental deixado por Luiz Costa, cuja organização ele se queixava de nunca levar a bom termo, é, certamente, um património da maior importância para a Bairrada e para todos os amantes da cultura. Aqui fica o voto e o apelo para que alguém promova tão necessária empresa e tão justa homenagem a este grande bairradino.
Infelizmente, as circunstâncias da vida não me permitiram acompanhar este querido amigo nos últimos dias de uma existência tão rica. Ele, que era uma pessoa alegre e bem-humorada, costumava dizer: “ Fui operado e, contra o que esperava, sobrevivi. Por isso, o que viver daqui para diante é lucro.” Ainda há pouco tempo me telefonava dizendo: “Sei que tenho os dias contados, mas, ao fim e ao cabo, não me posso queixar, porque já vivi mais de 80 anos e penso que cumpri a missão”.
Neste momento em que me inclino sobre a sua memória, não posso esquecer a companheira de sempre, Dona Jú, e seus filhos Ana Sofia e Manuel José, com quem partilho um pouco da sua muita dor. Luiz Costa deixa o legado das suas qualidades de homem culto, de uma curiosidade inesgotável e sempre cogitando em qualquer iniciativa que dignificasse a sua e nossa Bairrada. Mas deixa outra herança não menos preciosa. Ele foi um marido, pai e avô amantíssimo. O seu carinhoso desvelo pelos netos aparece retratado nesta nota de uma pequena agenda, com a data de 19 de Junho de 2012:
“Comprar quatro (4) cadernos encadernados (tipo livro) – papel sem linhas – para oferecer aos 4 netos para eles começarem a fazer um «diário» (do mais marcante) da sua vida.
Agora é que eu vejo a sua utilidade porque, diz o ditado, aprender até morrer. Só assim se vence o que já alguém escreveu : «cada velho que morre é uma biblioteca que arde».”
Adeus, grande amigo. Até um dia, em que nos reencontremos no mundo da suprema beleza e harmonia – o grande ideal da sua vida.

Luiz Ferreira da Costa faleceu aos 84 anos, na quinta-feira, dia 4 de outubro. Foi o grande impulsionador das Caves São João (S. João de Azenha, Sangalhos, Anadia), fundadas pela geração precendente, e o primeiro a comercializar regularmente, em Portugal, um vinho com denominação de origem – ainda não controlada – e indicação de colheita (exceção feita ao caso especial do Vinho do Porto). A estreia foi feita em 1961 com dois Bairradas: Frei João branco, colheita de 1959, e Frei João tinto, colheita de 1960. São hoje peças de coleção.

A. Dias Cardoso