Decorridos cem anos sobre a morte do estadista José Luciano de Castro, o município de Anadia deu início, na tarde do último domingo, a um conjunto de ações que vão decorrer até 2015 para homenagear esta ilustre figura que, como diria a presidente da Câmara Municipal, Teresa Cardoso, “Anadia não esquece” e “adotou”.
A tarde começou com a cerimónia de homenagem, nos Paços do Município, a que se seguiram outros momentos: inauguração da exposição “José Luciano de Castro (1834-1914)”; lançamento da edição “José Luciano de Castro (1834-1914)”; cerimónia junto ao Monumento de José Luciano de Castro, na Praça do Município e visita ao Museu José Luciano de Castro, propriedade da Santa Casa de Anadia.
Antes das intervenções dos oradores, Jorge Sampaio, vice-presidente da Câmara anadiense sublinharia, na presença de dezenas de convidados, que “o programa delineado honra José Luciano de Castro e o município de Anadia”. Falava de uma vasta calendarização de ações (exposições, sketch de teatro, ciclo de cinema, peddy-paper, apresentação de um espumante, colóquio nacional, concurso de trabalhos escolares, incluindo ações conjuntas a realizar com a Junta de Freguesia de Oliveirinha, localidade onde José Luciano de Castro nasceu), que culminam a 9 de março de 2015, com a entrega de prémios do concurso de trabalhos escolares.

Lição sobre a vida e obra do estadista. Na ocasião, Manuel Cardoso Leal, que há precisamente um ano lançou a obra “José Luciano de Castro – Um homem de Estado (1834-1914)”, falou da importância de “celebrar um dos maiores estadistas portugueses da História Contemporânea, com uma carreira de mais de 50 anos na frente política”, defensor de ideais “que em grande medida permanecem atuais”. Aliás, José Luciano de Castro, revelou Cardoso Leal, “quando se opôs a um excessivo poder do rei, chegou a declarar: «Acima da Monarquia está a Liberdade»”, explicando também que “estava José Luciano no topo do poder, como presidente do conselho, quando teve de se demitir com o «ultimato inglês», em 1890, donde se gerou uma crise política, agravada com uma bancarrota, que favoreceu novas ideias de engrandecimento do poder régio que levaram à anulação de muitos dos progressos antes conseguidos. Mas ele continuou a defender as suas ideias de sempre, mesmo depois de adoecer gravemente em 1900, mantendo-se ainda durante mais dez anos, em condições de grande debilidade física, no meio de uma luta política extremamente agressiva”.
E a terminar questionou: “Por que é que o grande português que foi José Luciano de Castro não é mais lembrado a nível nacional?”, para em seguida explicar: “Primeiro, deu-se o caso de o seu nome ter sido retirado de avenidas e praças em todas as cidades do país, logo que chegou a República. Em termos mais gerais, acontece que a época do liberalismo foi, durante largas décadas do século XX, praticamente omitida das pesquisas historiográficas e do ensino nas escolas. Por isso, merece todo o aplauso o programa da Câmara Municipal que prevê, lá para o final do ano, a reunião de alguns desses especialistas em torno de José Luciano de Castro”.
Também António Santos Justo (Universidade de Direito da Faculdade de Coimbra) se debruçou sobre a vida e obra do homenageado, dando uma verdadeira lição de história aos presentes, revelando alguns factos desconhecidos de muitos munícipes: “José Luciano de Castro serviu o país com a maior devoção e dedicação exemplar”; “a sua vida foi uma grande lição”; “era uma fortaleza moral, sereno e destemido”, e ainda: “passou por várias crises políticas e nunca teve uma fraqueza de espírito, uma hesitação”.
Por isso, considerou a importância do ato: “Recordá-lo, perpetuar a sua memória é importante para que todos saibam quem foi”. “Uma figura política central no Portugal do seu tempo. Uma personalidade marcada por valores de lealdade, tenacidade, eloquência, erudição e elevado sentido de Estado.”
Percorrendo toda a sua vasta vida política e profissional, Santos Justo falaria ainda da sua inteligência invulgar: “uma inteligência viva, que concluiu a Universidade aos 19 anos e que fez do seu trabalho a sua bandeira”, mas que a nível pessoal e familiar “era humilde, afetuoso, modesto, nunca esquecendo os amigos”.

Região e concelho muito lhe devem. “Era imperativo de justiça homenagear o jornalista, o jurisconsulto, o político e o amigo de Anadia”, mas também “contribuir para divulgar a sua vida e a sua obra”, diria a autarca Teresa Cardoso a propósito deste “notável político” que contribuiu para o progresso de Anadia.
A edil falaria do estadista que teve sempre um pé no centro do poder e outro na província: “aqui se deslocou para pedir a Alexandre de Seabra, que não conhecia pessoalmente, que lhe concedesse o seu lugar nas listas para eleição de deputados, aqui se tornou seu amigo, aqui casou com a sua filha, Maria Emília e constituiu família”.
Graças a ele, “Anadia conheceu notoriedade”, mas também a região muito lhe deve a ele e à esposa Maria Emília, que “teve um papel preponderante e ainda pouco divulgado”: a criação da Escola Prática de Viticultura e Pomologia da Bairrada; o sucesso na produção de vinhos espumantes segundo o método da Champagne; a constituição da empresa Associação Vinícola da Bairrada; a exploração das águas da Curia e desenvolvimento da estância termal; a fundação da Santa Casa da Misericórdia de Anadia e a criação do Hospital-Asilo José Luciano de Castro.
Teresa Cardoso sublinhou a restituição do seu nome à principal avenida de Anadia, e ainda atribuído a uma das suas transversais. “Na praça do Município, e de frente para a avenida com o nome do conselheiro e tendo como fundo a casa do poder político local, ergue-se o busto de José Luciano de Castro, que se mantém como testemunho da sua história e da sua influência na vida local”, acrescentou.
Na ocasião, a edil não deixou de lamentar que embora todo o legado deixado a Anadia, o município assiste a reformas e a novas reorganizações em matéria administrativa, judicial e de saúde, que colocam em causa conquistas que as populações levaram a cabo durante vários anos, designadamente a criação das suas freguesias, reorganização Judiciária e reorganização da Saúde que, segundo Teresa Cardoso, “levou a que o município, nomeadamente o seu Hospital José Luciano de Castro, tivesse perdido alguns serviços e valências, sem que ainda hoje se perceba, de forma clara e objetiva, quais os serviços a prestar no futuro, a quem cabe a sua gestão ou até quando a população do concelho vai ter de esperar para que este hospital recupere a sua anterior prestação à comunidade.”
Catarina Cerca
catarina@jb.pt