O padre Stefano Martoglio, Conselheiro Regional para a Região Mediterrânea da Congregação Salesiana, esteve de visita a Portugal. Depois de uma semana em Mogofores, fez-nos um balanço muito positivo destes dias passados em pleno coração da Bairrada, de onde leva a certeza de que o pequeno Colégio de Mogofores é um bom modelo da proximidade, da relação familiar que um estabelecimento de ensino deve manter com os alunos e as suas famílias.

Já conhecia o Colégio de Mogofores?
Não, não conhecia. É a minha primeira vez aqui.

Que impressão leva do Colégio?
É um colégio pequenino mas com um clima muito familiar. E isso é importante, pois confere-lhe uma grande capacidade de educação individualizada na escola, que dá muitos bons frutos, sobretudo junto de jovens mais difíceis ou com problemas.
O colégio tem um clima muito familiar, que vai ao encontro do sistema educativo salesiano, que se chama sistema preventivo. Noto que todos os leigos que trabalham nesta escola (professores, funcionários) têm essa capacidade de conseguir ter um modo de educação muito personalizado porque a casa é bastante pequena.
O espírito salesiano que esteve na génese e filosofia de D. Bosco existe aqui?
Sim. O espírito de família é claro, nota-se a presença do espírito salesiano e os professores, funcionários e irmãos estão muito perto dos jovens. Existe uma grande proximidade, o que é muito benéfico. Este é um bom modelo.

O concelho de Anadia tem dois colégios a que se juntam mais dois estabelecimentos de ensino públicos. Numa altura em que há cada vez menos crianças, menos alunos e redução de turmas, é possível a subsistência e convivência entre estes dois modelos?
Não sei responder especificamente a esta situação particular do vosso país. Mas as convenções com o Ministério da Educação são importantes. Sem essa ajuda do Estado, não poderiam funcionar muitos colégios.

Os colégios católicos têm futuro?
Sim. Porque desenvolvem um trabalho educativo não só com os jovens, mas com os pais e as famílias que devem ser ajudadas no caminho de formação dos jovens. Muitas escolas não têm possibilidade de levar a cabo esta missão, que é muito importante. Aqui, ajuda-se diretamente os jovens, mas indiretamente as suas famílias e estas têm muita necessidade de ajuda.
Como vê estes casos de violência extrema nas escolas, de agressão e de alunos que assassinam professores e colegas?
Estes casos são chocantes. Mas o trabalho do educador é de olhar antes, de prevenir. Prevenir é construir uma relação diferente que permite evitar estas situações. Todos os educadores, professores e funcionários, no pátio da escola, no recreio, devem ter uma palavra para com os jovens: “como vais?; como vão as coisas em casa?”, porque sabemos que os sentimentos vão-se acumulando no coração, o que pode ser muito perigoso, se forem de rancor e raiva. Depois, há um problema de economia de escala. Os alunos em escolas grandes, com todos os níveis de ensino, correm um grande risco de anonimato. E a educação não é um trabalho, é sim uma arte. É preciso saber ver, estar atento, saber ouvir e ter o contacto pessoal. O centro da Educação é a confiança.

O que diferencia os colégios de Portugal e da Europa das restantes casas que a congregação tem, por exemplo, nos países maioritariamente muçulmanos?
A Congregação Salesiana tem na Europa 650 escolas e centros de formação profissional. É uma holding educativa. Mas existe uma grande diferença em relação aos estados de maioria muçulmana. Aí temos um trabalho difícil. São estados que aceitam melhor a formação profissional. É por aí que se conseguem abrir portas, porque temos grande tradição em formação profissional e esta é importante para a economia desses estados.

Ainda vai estar uns dias em Portugal. Vai assistir aos XXII Jogos Nacionais Salesianos?
Sim, vou seguir para Manique e Estoril. Vou assistir aos 22.º Jogos Nacionais, uma tradição salesiana que existe só em Portugal. Um evento (30 de abril a 3 de maio) que envolve os colégios. Aqui é possível às escolas fazerem coisas juntas, que lhes dá uma identidade nacional que noutras nações não é possível. Isso é muito positivo e salutar.

Acompanhar todos os que trabalham no terreno

A Congregação Salesiana tem 15 mil irmãos salesianos. O padre Stefano Martoglio tem 49 anos e é o conselheiro regional que promove uma ligação mais direta entre as províncias e o Reitor-Mor (Superior Geral) e seu Conselho.
Cuida dos interesses das províncias que lhe são confiadas. A ele cabe transmitir ao Conselho Geral as condições que vai acompanhando no terreno. É o responsável para a região mediterrânea que abrange 3300 irmãos salesianos e cerca de 400 obras espalhadas por Portugal, Espanha, Itália e por países do Médio Oriente onde a congregação tem casas (Turquia, Irão, Líbano, Israel, Palestina, Egipto e Síria) e ainda onde existem comunidades ligadas à província da região mediterrânea, como são os casos da Tunísia, Albânia, Kosovo, Roménia, Moldávia, e no norte da Europa, Lituânia.
O P. Stefano Martoglio é responsável ainda pelos cerca de 15 mil leigos que trabalham nas obras salesianas nos países acima referidos, seja em escolas, centros de formação profissional, obras de acolhimento, obras para jovens pobres ou nas paróquias.
Por isso, parte do ano é passado em viagem. Em Itália permanece apenas quatro meses (dezembro e janeiro e em junho e julho). Nos restantes meses circula pelas províncias, visita e acompanha a vida nas comunidades, junto dos irmãos salesianos, dos leigos e colaboradores. Uma vida passada junto da família salesiana, acompanhando o clima salesiano e encorajando os que estão no terreno.

Catarina Cerca