A descoberta de um local arqueológico na Freguesia de Vacariça poderá trazer novos dados para a localização do antigo Convento de S. Vicente. Este mosteiro (misto) do qual há relato da sua enorme dimensão administrativa, entre os séculos VI e IX, encerra um grande mistério quanto àquela que terá sido a sua localização, não havendo vestígios nesse sentido. Agora, um gestor hoteleiro do Luso, Nuno Alegre, ao investigar as origens do nome daquela vila termal para a edição de um livro, acabou por “colidir” com o tema e acredita ter encontrado um local arqueológico que possa reabrir esta antiga discussão.
Já alertado para esta descoberta, o Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico (IGESPAR) identificou e reconheceu que há indicadores suficientes para assinalar o local como de interesse arqueológico, medida com impacto no Plano Diretor Municipal (PDM) e salvaguardada para o futuro, uma vez que a zona de interesse arqueológico está situada na zona de expansão do futuro IC2.
Sem querer avançar que o local encontrado tenha a ver diretamente respeito com o Mosteiro de S. Vicente, até porque “seria um disparate arriscar isso neste momento”, Nuno Alegre não tem dúvidas de que se trata de “mais um local de interesse ao nível do património português e mais um atrativo para a região”.
O achado, situado nas “Pedras Negras”, a cerca de 500 metros do centro cívico da freguesia, na orientação do Reconco (Mealhada), apresenta uma área aproximada de três hectares onde abunda escória de ferro, existindo cerâmicas antigas e “um terreno com uma cota anormalmente elevada, que nos leva a crer que existiu um edifício antigo que, entretanto, colapsou”, disse Nuno Alegre, concluindo que “pode não ser nada, mas tem que ser investigado”. Nesse sentido, comunicou o achado ao IGESPAR a 31 de outubro do ano passado, seguindo-se uma visita ao local em maio deste ano e outra logo a seguir, com a presença de geólogos que terão detetado aflorações naturais de ferro naquela zona.
A localização do Mosteiro de S. Vicente, dono e senhor de uma vasta área do Centro e Norte do país, continua a ser uma grande incógnita. “É um grande mistério do ponto de vista histórico não haver rasto de nada”, lembrou Nuno Alegre, destacando que esta descoberta pode deixar algumas explicações e pode desvendar esse grande mistério.
Ter chegado a este local arqueológico pelo facto de estar a escrever um livro é para o ator “uma sorte, uma coincidência feliz” mas que “vai mexer com a zona de conforto de muita gente, pois quem discutia estas coisas à mesa do café vai ter que trabalhar o assunto a partir de novos dados, entre os quais muitos documentos que cito e reproduzo no livro”.

Um livro para perceber o significado de “Luso”. O livro de Nuno Alegre chama-se “De Luso – antiguidade googalizada” e vai ser editado antes do final do ano. A ideia inicial foi procurar a origem da palavra Luso, mas desde início a obra começou a tomar outras proporções em termos de pesquisa, como lembra o autor.
Nuno Alegre começa por explicar que “Googalizar” é a possibilidade contemporânea de “googlar” a “globalização”. Daí que este livro acabe por resultar numa viagem aos contributos que as fontes “online” podem acrescentar às fontes “clássicas”. Pertencendo à 3.ª geração de uma família de hoteleiros da vila de Luso, Alegre tomou a biblioteca familiar como o ponto de partida, colecionando documentos há cerca de uma década, e lançou-se na investigação da origem de Luso-Buçaco, numa pesquisa que demorou cerca de um ano e que culminou nesta obra de 270 páginas, com a supervisão e revisão de Maria Alegria Marques (professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e a colaboração crítica de Jorge de Alarcão e Silva (professor aposentado da Universidade de Coimbra e uma das maiores autoridades nacionais no campo da arqueologia).
“Além da informação científica coligida sobre o nosso concelho em áreas até agora pouco exploradas, acabou por resultar na identificação oficial por parte do IGESPAR de mais um local arqueológico no concelho da Mealhada, aumentando assim de forma prática e direta o nosso património comum”, diz Nuno Alegre.
Já a pensar num próximo livro, o hoteleiro lusense diz ter em calha a recriação do espaço que o Luso e Buçaco têm tido na história, como é exemplo o Campo de Batalha do Buçaco, a Fonte de S. João e o Mosteiro da Vacariça. “É um projeto que vai necessitar de uma equipa científica”, rematou.
João Paulo Teles