Padre Manuel Armando

Todos nos lembramos, por experiência própria, do que acontece com o leite quando, por necessidade, o pomos num púcaro sobre o fogão aceso para o aquecer. Se nos distraímos por breves instantes, rapidamente ele aquece e nos surpreende com o seu volume que extravasa os limites, depois torna-se morno ou enregela, diminui a quantidade e até desaparece.
Assim sucede, em muitas coisas e momentos, com o entusiasmo humano nas manifestações festivas periódicas ou noutras.
Enchemo-nos de energia nos propósitos e promessas, desejos e votos, ideias luminosas e projectos de grandes empreendimentos. Tudo com vivacidade e alegria, transbordantes de esperanças para um mundo diferente e atitudes renovadas.
Todavia, se não se atiça a mecha com actualizações conscientes e animadas, muito depressa tudo volta ao mesmo ou a pior porque a coragem cansou-se e os cometimentos congeminados não passam dos idealismos banais e sem pernas para andar em frente.
Passou-se a época do Natal. O Menino que apareceu entre nós com a missão de acordar os homens para a fraternidade, santidade e salvação, foi apresentado e representado por milhentas maneiras. A sua mensagem espalhou-se de mão em mão, de boca em boca, por escrito ou traduzida nos gestos materiais de amizade ou na troca recíproca de presentes.
Acenderam-se luzes, foram tocadas melodias, tradicionais e bonitas. A “febre” subiu e a festa atingiu os auges esperados.
Agora, corre-se o risco de sempre. Pensemos: há crianças a deambularem pela rua, jovens desamparados, casais desavindos, idosos sem condições de vida, gente sem trabalho nem instrução, Empresas encerram suas portas, escasseiam os agentes de saúde e aumentam as listas de espera nos cuidados sanitários, as Igrejas esvaziam-se e os sacramentos de renovação são protelados ou esquecidos. Grassa o materialismo e a guerra pelo dinheiro. As desigualdades sociais continuam a acentuar-se progressivamente.
Os desejos e votos proferidos pelos indivíduos deveriam empenhar consciências pessoais, na medida a transformar um modo de vida que fosse, por completo, consentâneo com o bem-estar material, moral e espiritual, traduzido numa sociedade mais fraterna.
O mandamento do Amor, projectado a partir do Presépio de Belém, subentende encontrarem-se corações preparados para o seu cumprimento.
O coração é de cada um de nós, mas o trabalho é para todos.