Assine já
Bairrada // Negócios & Empresas  

Rui Reste: “A ACIB quer ser uma ferramenta realmente útil para as empresas”

Um ano após assumir a presidência da Associação Comercial e Industrial da Bairrada (ACIB), Rui Reste faz um balanço positivo do trabalho desenvolvido, destacando o reforço da proximidade às empresas. Nesta entrevista ao JB, aborda os principais desafios que continuam a preocupar o tecido empresarial, traça as prioridades para os próximos anos de mandato e deixa uma mensagem de confiança aos empresários.

Jornal da Bairrada: Passou um ano desde que assumiu a presidência da ACIB. Que balanço faz deste primeiro ano de mandato?
Rui Reste: Faço um balanço claramente positivo. Foi um ano de muito trabalho, mas sobretudo de proximidade. Procurámos estar mais junto das empresas, ouvir as suas preocupações, identificar necessidades e reforçar o apoio que a ACIB presta diariamente aos empresários da nossa região.
Embora já conhecesse a associação e a sua equipa através de outras funções que desempenhei ao longo dos anos, este primeiro ano permitiu-me confirmar aquilo que já pensava: a ACIB é uma instituição sólida, com uma equipa técnica muito competente, experiente e profundamente comprometida com a sua missão. O nosso objetivo foi reforçar aquilo que considero ser o papel essencial de uma associação empresarial: ser uma ferramenta útil para as empresas, ajudando-as a ultrapassar dificuldades, a encontrar oportunidades e a tomar decisões mais informadas.
Foi também um ano de afirmação institucional, de reforço da visibilidade da associação e de consolidação da sua presença junto do tecido empresarial, dos municípios e das restantes entidades da região.

De que forma a associação conseguiu estar mais próxima das empresas?
A proximidade não se faz apenas através de reuniões formais ou de contactos institucionais. Faz-se através da disponibilidade para ouvir, esclarecer dúvidas, ajudar a resolver problemas e criar oportunidades para as empresas.
Ao longo deste primeiro ano procurámos reforçar essa presença no terreno, aumentando o contacto direto com os associados e estando mais atentos às preocupações que nos foram transmitindo.
Também reforçámos a comunicação da associação e a sua presença junto da comunidade empresarial e continuámos a promover ações de formação, sessões de esclarecimento e outras iniciativas de apoio empresarial, mas aquilo que considero mais importante foi termos conseguido fortalecer a relação de confiança entre a associação e os seus associados.

Que iniciativas ou projetos destaca como mais relevantes neste primeiro ano de trabalho?
Destacaria sobretudo o trabalho desenvolvido em cinco áreas que considero fundamentais para a competitividade das empresas da nossa região.
A primeira foi a capacitação empresarial, através da realização de workshops, ações de formação e sessões técnicas, em áreas como a gestão, a digitalização, a cibersegurança, as obrigações legais ou o acesso a apoios públicos.
A segunda foi o emprego e a qualificação profissional. A escassez de mão de obra continua a ser uma das maiores preocupações dos empresários e a ACIB tem procurado apoiar as empresas na identificação de necessidades, no recrutamento e na qualificação dos seus recursos humanos.
A terceira foi o apoio ao investimento empresarial, através do acompanhamento de programas como o PRR, o Portugal 2030 e outras oportunidades de financiamento que permitiram apoiar empresas na concretização dos seus projetos de crescimento e modernização.
Uma quarta área muito importante foi a digitalização. Destaco aqui o projeto Acelerar 2030, através do qual a ACIB já realizou mais de 300 Diagnósticos de Maturidade Digital a empresas da Bairrada e apoiou cerca de 160 empresas na obtenção de vouchers destinados à digitalização dos seus negócios. Também acompanhámos comerciantes e empresários na adaptação a novas ferramentas e exigências, como o sistema VOLTA e os projetos dos Bairros Comerciais Digitais.
Destaco igualmente a aprovação do projeto ACIB.IS – Ferramentas de Capacitação para o Crescimento Sustentável da Indústria das Regiões da Bairrada e de Barcelos, desenvolvido em parceria com a Associação Comercial e Industrial de Barcelos. Trata-se de um projeto ambicioso que permitirá reforçar a competitividade, a inovação e a sustentabilidade das PME dos dois territórios.
Por fim, gostaria de destacar o reforço da proximidade ao tecido empresarial. Iniciámos um conjunto de encontros empresariais nas zonas industriais, começando pela ZI de Vila Verde e pela visita à empresa Sanitana em Anadia, uma iniciativa que pretendemos alargar progressivamente a outras zonas industriais da região. Paralelamente, começámos também a sensibilizar os empresários da restauração para a adoção de sistemas digitais de HACCP.

Quando assumiu funções, apontou a escassez de mão de obra qualificada como um dos principais desafios das empresas. A situação evoluiu? Que contributo pode dar uma associação empresarial para ajudar a responder a este problema?
Continua a ser uma das maiores preocupações e desafios dos empresários da nossa região.
Em alguns setores, a dificuldade já não está apenas em encontrar trabalhadores qualificados; está, muitas vezes, em encontrar trabalhadores disponíveis. A resposta a este desafio passa por várias dimensões: formação profissional, valorização das competências, maior aproximação entre o sistema de ensino e as necessidades das empresas, atração de talento e integração de trabalhadores estrangeiros. Dito desta forma parece simples, mas cada uma destas áreas apresenta desafios complexos que exigem respostas consistentes e de longo prazo.
As associações empresariais têm aqui um papel importante porque conhecem a realidade do terreno e conseguem identificar necessidades concretas das empresas. É isso que procuramos fazer através da formação profissional, dos serviços de emprego, do acompanhamento às empresas e da colaboração com diferentes entidades públicas e privadas na procura de soluções.
Há ainda uma dimensão que considero absolutamente decisiva: a habitação. Podemos captar trabalhadores, mas será muito difícil fixá-los se não existirem soluções habitacionais acessíveis. Este é um desafio nacional, mas que também se faz sentir na nossa região.
Por isso, importa reconhecer o esforço que os Municípios de Oliveira do Bairro e Anadia têm vindo a desenvolver nesta matéria.

A carga fiscal e a burocracia eram outras preocupações que identificou. Tem sentido sinais positivos por parte do Governo e das entidades públicas nestas matérias?
Existem alguns sinais positivos, mas a perceção dos empresários continua a ser de que há ainda muito caminho para percorrer. E, sinceramente, também partilho dessa visão.
Quando falamos de burocracia, não estamos a falar apenas de papelada ou de formulários. Estamos a falar de tempo, de recursos e de energia que deixam de ser canalizados para aquilo que realmente faz crescer uma empresa.
Segundo dados do Banco Mundial, uma empresa em Portugal pode gastar cerca de 243 horas por ano apenas no cumprimento das obrigações fiscais. Estamos a falar de aproximadamente 30 dias de trabalho por ano. Numa pequena empresa, onde muitas vezes é o próprio empresário que acumula funções de gestão, administração e operação, este peso torna-se ainda mais evidente.
Penso que tem havido alguma consciência crescente sobre a necessidade de simplificação, mas os empresários continuam a esperar medidas mais profundas e com impacto real no seu dia a dia.

Defendeu também a necessidade de resolver questões estruturais, como o nó da autoestrada (A1). Entretanto, houve desenvolvimentos relevantes neste último ano. Isso deixa-o confiante?
Tenho plena consciência de que é um processo que ainda exigirá tempo e persistência, mas considero que foi dado um passo muito importante com a aprovação, na Assembleia da República, da recomendação para a criação do Nó da A1.
As acessibilidades continuam a ser um dos fatores mais relevantes para a competitividade das empresas.
A nossa região possui uma forte componente industrial e exportadora, e as empresas dependem cada vez mais de cadeias logísticas eficientes para competir nos mercados nacionais e internacionais. Melhorar a ligação à principal autoestrada do país significa aumentar a atratividade do território e criar melhores condições para quem aqui investe, trabalha e produz riqueza.
Por isso, este desenvolvimento deixa-me confiante. Não porque o processo esteja concluído, mas porque existe hoje um reconhecimento político muito mais alargado da importância desta infraestrutura para Anadia, Oliveira do Bairro e para toda a região da Bairrada.

Um dos compromissos assumidos por si, na tomada de posse, foi o de ser uma ponte entre empresários, autarquias, Governo e outras instituições. Já teve alguma situação concreta em que tal se tenha verificado?
Sim, e diria até que esse é um dos papéis mais importantes de uma associação empresarial.
É um trabalho muito constante e, por isso mesmo, nem sempre é fácil identificar um momento específico, porque acontece praticamente todos os dias.
Trabalhamos regularmente com os Municípios de Anadia e Oliveira do Bairro, com o IEFP através do GIP, com o IAPMEI, com escolas profissionais, com entidades fiscalizadoras como a ASAE e a ACT, bem como com diversas instituições ligadas à formação, ao empreendedorismo e ao investimento.
Esse papel de ligação tem sido particularmente importante em áreas como o emprego e recrutamento, a formação profissional, a integração de trabalhadores estrangeiros, o esclarecimento de obrigações legais, o acesso a programas de financiamento e o acompanhamento de processos de investimento empresarial.
Posso dar alguns exemplos concretos. A implementação dos Bairros Comerciais Digitais, o acompanhamento dos comerciantes na adaptação ao sistema VOLTA, os projetos de digitalização empresarial, o trabalho desenvolvido no âmbito do emprego e da qualificação profissional ou mesmo a defesa de infraestruturas estratégicas para a região, como o Nó da A1, são exemplos de matérias onde a articulação entre diferentes entidades foi fundamental.

Que papel têm desempenhado os municípios de Anadia e Oliveira do Bairro na concretização dos objetivos da associação?
Têm desempenhado um papel positivo e muito importante.
Os Municípios de Anadia e Oliveira do Bairro conhecem bem a importância do tecido empresarial para o desenvolvimento económico local. Veja-se o alargamento das zonas industriais. São as empresas que criam emprego, geram riqueza, atraem investimento e ajudam a fixar população.
Temos trabalhado em conjunto em diversas iniciativas, em ações de promoção económica e na discussão de temas estruturantes para a região, como as acessibilidades, a habitação, a qualificação profissional e a atração de investimento.
Naturalmente existirão sempre desafios e matérias a melhorar, mas aquilo que destaco é a existência de uma visão comum sobre a importância de criar condições para que as empresas possam crescer, investir e continuar a gerar oportunidades para quem vive e trabalha na nossa região.

Há diferenças substanciais entre o tecido empresarial de Anadia e Oliveira do Bairro?
Existem algumas diferenças, mas também muitas complementaridades.
Oliveira do Bairro apresenta uma forte vocação industrial e exportadora, com empresas muito relevantes em setores como a metalomecânica, os equipamentos, os moldes, os materiais de construção, a alimentação e outros segmentos industriais que têm uma presença significativa nos mercados internacionais.
Anadia possui igualmente uma importante base industrial, mas complementa-a com uma forte identidade ligada ao setor vitivinícola, ao enoturismo, ao turismo e aos serviços. É um concelho que soube valorizar muito bem os seus recursos endógenos, sem deixar de apostar na indústria e na captação de investimento.
Os dois concelhos têm ainda algo muito importante em comum: uma forte cultura empresarial. Estamos a falar de territórios onde predominam as micro, pequenas e médias empresas, muitas delas de origem familiar, que ao longo de décadas foram capazes de criar emprego, gerar riqueza e afirmar a região dentro e fora do país.
Segundo os dados mais recentes, as PME representam mais de 99% das empresas portuguesas e essa realidade sente-se particularmente na nossa região. São essas empresas que constituem a verdadeira espinha dorsal da economia local.
Por isso, mais do que olhar para as diferenças, gosto de olhar para aquilo que une os dois concelhos: o espírito empreendedor das empresas, a capacidade de adaptação dos empresários e a vontade permanente de investir e crescer.

Certamente que haverá outras preocupações transmitidas pelos empresários. São as mesmas de há um ano ou surgiram novos desafios?
Os temas centrais mantêm-se: mão de obra, custos de contexto, burocracia e competitividade.
Mas surgiram também novas preocupações que há poucos anos tinham uma importância muito menor. Refiro-me à digitalização, à cibersegurança, à adoção da inteligência artificial e à necessidade de adaptação constante a novas exigências legais, regulamentares e tecnológicas.
A velocidade da mudança aumentou e as decisões têm de ser tomadas cada vez mais depressa.
Esta realidade exige uma capacidade permanente de adaptação. Hoje, um empresário tem de se preocupar simultaneamente com clientes, recursos humanos, energia, legislação, tecnologia, cibersegurança e competitividade internacional.
É precisamente neste contexto que as associações empresariais assumem um papel ainda mais relevante.

Há algum projeto ou iniciativa que gostaria de ter concretizado neste período e que acabou por não avançar como previsto?
Uma das áreas onde gostava de ter avançado mais prende- -se precisamente com o reforço da proximidade às empresas através da realização de encontros empresariais e visitas regulares às zonas industriais da região. Já demos os primeiros passos, com iniciativas na ZI de Vila Verde, mas a nossa ambição é chegar mais longe e criar uma dinâmica mais regular de contacto direto com os empresários no terreno.
Gostaria também de continuar a aprofundar a ligação entre as empresas, as escolas, os centros de formação e as restantes entidades do território, porque estou convicto de que muitos dos desafios que enfrentamos (como a mão de obra e a qualificação), exigem respostas cada vez mais colaborativas.
Mas prefiro olhar para aquilo que foi possível concretizar e para as bases que conseguimos criar. Muitas vezes os resultados mais importantes não são aqueles que se veem de imediato, mas sim os que criam condições para projetos e iniciativas que irão produzir efeitos nos próximos anos.

“Gostava que dissessem que a ACIB fez diferença na vida das empresas”

O que gostaria que os empresários dissessem sobre o trabalho da ACIB quando este mandato chegar ao fim, em 2028?
Gostaria que dissessem que a ACIB esteve presente quando foi necessária; que soube ouvir, apoiar, representar e criar valor para as empresas; que foi uma associação próxima dos empresários, capaz de compreender os seus problemas, de os ajudar a enfrentar desafios e de identificar oportunidades para o crescimento dos seus negócios.
No fundo, gostaria que a associação fosse reconhecida não apenas pelo que fez, mas pela diferença que conseguiu fazer na vida das empresas que representa.

Que mensagem deixa aos empresários da Bairrada?
Deixo uma mensagem de confiança, como não poderia deixar de ser. Vivemos tempos exigentes e de mudança acelerada, mas as empresas da Bairrada já demonstraram inúmeras vezes a sua capacidade de adaptação, trabalho, inovação e resiliência.
Deixo também um apelo aos empresários: continuem a investir nas pessoas, na qualificação, na inovação, na transformação digital e na modernização dos vossos negócios. O talento, o conhecimento e a capacidade de adaptação serão cada vez mais fatores decisivos para competir num mercado global. A ACIB continuará ao lado dos empresários, ajudando a transformar desafios em oportunidades e contribuindo para uma Bairrada mais forte, mais dinâmica, mais inovadora e mais competitiva.