A Fundação Mata do Bussaco entrou num novo ciclo sob a liderança de Gonçalo Breda Marques. O presidente assume como prioridades a recuperação do património, o reforço da conservação da floresta e a conquista de uma maior estabilidade financeira, defendendo um maior compromisso do Estado.
Nesta entrevista ao JB, na semana em que a Mata recebeu o certificado internacional de primeira Floresta Terapêutica da Península Ibérica, Gonçalo Breda Marques fala da ambição de transformar o Bussaco numa referência internacional do turismo de natureza e da conservação ambiental, sem perder de vista a sua missão de preservar um património único.
Oriana Pataco: Que prioridades definiu para a Mata Nacional do Bussaco, nos próximos anos?
Gonçalo Breda Marques: Nos primeiros dias, procurei fazer um diagnóstico exaustivo sobre a Mata do Bussaco. Em relação ao estado da floresta, do património construído e edificado, quadro de pessoal, enfim, procurei inteirar-me da situação para depois definir uma estratégia para os próximos cinco anos. E há, de facto, preocupações urgentes. A Mata precisa de intervenções e de investimento urgente e não é possível fazê-lo com as receitas próprias. Havendo essa necessidade, procurei reunir desde logo com todos os organismos do Estado, desde o central ao regional e local, para que tivessem um olhar mais atento sobre a Fundação e sobre a Mata do Bussaco. Nestes primeiros tempos, já fiz mais de 30 reuniões, com membros do governo, Câmara Municipal da Mealhada, Junta de Freguesia do Luso, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), IPDJ, Turismo de Portugal, universidades… ou seja, houve aqui já um conjunto de diligências nesse sentido.
Por outro lado, a Mata Nacional do Bussaco é monumento nacional e tem uma candidatura a património mundial. Acabámos de receber a certificação de Primeira Floresta Terapêutica da Península Ibérica. Ou seja, a Mata tem um estatuto que nos traz mais responsabilidades na sua conservação e recuperação.
Como encontrou a Fundação? Como avalia o trabalho do seu antecessor, Guilherme Duarte?
O meu foco é sobre o trabalho que vou ter pela frente e os próximos cinco anos. Vou dar continuidade a tudo o que considero que está bem, mas vou querer fazer a diferença aqui na Mata do Bussaco. Foi nessa condição que aceitei este desafio, estando convencido de que poderei fazer a diferença. Tenho uma experiência política enorme, tenho contactos de mais de 20 anos e vou utilizar esses conhecimentos ao serviço da Mata e da Fundação. Este é o meu foco, no futuro.
Que garantias financeiras do Estado tem a Fundação Mata do Bussaco?
A Fundação não tem – é o que estamos agora a tentar fazer – garantias financeiras do Estado, ou seja, vive exclusivamente das receitas próprias. Depois, pode é candidatar-se a fundos comunitários. Nós tivemos um Fundo Ambiental em 2024 e 2025 mas não é garantido que nos anos seguintes continue a ter esse fundo ambiental, nem outro tipo de fundos.
Neste momento, já estamos a preparar uma candidatura ao fundo de salvaguarda, por causa das últimas tempestades, apresentámos já ao sr. Ministro da Agricultura uma proposta de investimento que está a ser analisada e que vai ser avaliada também pelo Fundo Ambiental e estamos a tentar perceber de que forma é que, através do Orçamento de Estado, possa existir uma rubrica de financiamento à Mata do Bussaco, que nos permita fazer planeamento e ter alguma estabilidade financeira. Mas nós estamos a viver das receitas próprias, que geramos nas entradas na Mata, no Convento de Santa Cruz, através do trabalho que fazemos com os guias turísticos, da loja da Fundação, do bar e da concessão do Hotel Palace do Bussaco.

A FMB está a braços com três questões fundamentais para consolidar a Mata como referência nacional. Vamos começar pelo património, que passa pela recuperação das capelas da Via Sacra e outros edifícios. Tem sido feito algum trabalho nesse sentido?
Como lhe referi anteriormente, temos reunido com diferentes organismos. Hoje mesmo vamos ter aqui uma reunião com a vice-presidente da CCDR Centro que tem a cargo a cultura, que trará uma equipa de peritos para verificar as obras de arte que temos no Convento, para ver o estado da Via Sacra e das peças que precisam de recuperação, e até analisar as antigas garagens do Palace – que já tiveram há uns anos um fundo garantido, mas que, entretanto, se perdeu e queremos recuperar esse projeto.
Estamos a atacar em várias frentes ao mesmo tempo, porque de facto é preciso muito investimento. O nosso quadro de pessoal também é muito pequeno, deve ser reforçado sobretudo com técnicos, temos de conseguir garantir, pelo menos, que haja uma equiparação aos funcionários públicos e não estamos a esse nível, com as mesmas funções, o que lamento.
Depois, temos a questão da conservação da biodiversidade… com as ameaças de invasoras e tendo em conta as alterações climáticas e os frequentes fenómenos extremos, nomeadamente tempestades. Como é que a Fundação tem lidado com este desafio?
São desafios gigantes. Nós temos aqui de ter uma grande preocupação e eu assumi isso ao aceitar este desafio, que era adotar as melhores práticas que existem no mundo em matéria de conservação da natureza. Para isso, nós temos de alargar o nosso quadro de pessoal, temos de ter técnicos e apoio financeiro para isso. Um exemplo, uma limpeza na Mata não é uma limpeza normal, em que cai uma árvore e temos que a retirar. Algumas nem têm que ser retiradas, podem ficar e criam ali um ambiente interessante. Quando tem de se retirar, tem de ser com muito cuidado para não estragar as árvores ao lado. Para isto, é preciso um acompanhamento técnico, o que acarreta custos elevadíssimos de forma a manter a biodiversidade existente.
Finalmente, a terceira questão fundamental, o muro em redor da Mata. Como está a sua reabilitação?
Nós queremos muito recuperar o muro com cinco quilómetros, que está à volta dos cerca de 105 hectares da Mata e que tem sofrido muito com as tempestades, que leva à queda de árvores, que por sua vez destoem o muro, que tem de ser recuperado. É um investimento grande a fazer.
Temos também a hipótese que já colocámos, de recuperar as várias casas que temos no interior da Mata, que poderão voltar a servir como alojamento local. Nesta altura, precisam de ser recuperadas porque estão desconfortáveis e sem condições de serem “vendidas” para esse efeito. Depois desse grande investimento feito, podem representar uma grande receita para a Fundação.

Qual é o estado de saúde da Mata do Bussaco? Existem espécies ou zonas particularmente preocupantes?
Nós temos de manter a floresta primitiva. Estimamos ter uma coleção de adernos (adernal) com 500/600 anos, provavelmente única no mundo. Há até quem diga que temos adernos com mais idade, bastante mais – é uma curiosidade que temos de tentar perceber.
Nós tentamos manter a biodiversidade repondo espécies exóticas ao longo dos anos, substituindo árvores – para isso, também temos os viveiros, que queremos melhorar e dar-lhes uma nova vida; e onde existirão espécies exóticas em stock – para tentar preservar ao máximo este ambiente, esta biodiversidade.
No dia 17 de julho, a Fundação recebeu a certificação internacional de Floresta Terapêutica para a Mata do Bussaco. Como pretende potenciar esse reconhecimento?
O Bussaco passa a ser oficialmente a primeira Floresta Terapêutica da Península Ibérica, um “selo” atribuído pelo Gabinete Internacional de Certificação de Florestas Terapêuticas. A Mata vai passar a integrar um grupo restritíssimo de apenas quatro florestas certificadas em todo o mundo – uma na Áustria, duas na Alemanha e a nossa. Isto, obviamente, vai ter um grande impacto. Esta certificação confere-nos um estatuto mundial e traz consigo também uma enorme responsabilidade de preservação e promoção da saúde.
É justo que se diga que este trabalho foi feito em estreita cooperação com a agência Destinature, trabalho este que foi preparado o longo de vários anos. Deve também ser feito um reconhecimento a todos os colaboradores da Mata do Bussaco, que têm mantido, ao longo dos anos, este espaço nestas condições.
O que diferencia a Mata para receber este estatuto?
Tem uma biodiversidade excecional. São 105 hectares com uma história botânica de mais de 400 anos. Tem espécies únicas e tem o maior adernal do mundo. Contribuem também para esta certificação os diversos cursos de água. A qualidade do ar e da acústica – é um ar de extrema pureza e uma envolvência sonora clinicamente propícia ao relaxamento.
As pessoas perguntam… “mas as florestas não são todas terapêuticas, não fazem todas bem à saúde?” É verdade, a natureza cura de uma forma geral. Mas o Bussaco foi submetido a uma auditoria científica rigorosa por este gabinete internacional. Foram validadas, a qualidade do ar, a densidade botânica, a acústica e a existência de infraestruturas e acessibilidades adequadas para práticas de saúde. É a diferença entre ter um remédio caseiro e uma terapia médica certificada.
Nós temos já percursos desenhados especificamente para este efeito, trilhos de imersão, com programas, acompanhados de guias, que iremos formar.

Em que ponto se encontra a reabilitação do Palace Hotel do Bussaco? A questão do concurso internacional de concessão está encerrada?
Foi feito um concurso para a concessão do Palace, que poderá vir a ser muito importante para o futuro, porque prevê um investimento de mais de 10 milhões de euros na recuperação do Hotel e do Chalet de Santa Teresa e, para além disso, pode melhorar muito a renda que é paga anualmente à Fundação.
O concurso foi feito, entretanto houve recurso, que ainda está a ser analisado em tribunais. Houve já duas decisões, no Tribunal de Primeira Instância e depois num Tribunal Superior, que dá indicação de que se deve repetir o concurso. Entretanto, houve um novo recurso para o Supremo e estamos a aguardar essa decisão.
O que nos importa é que, depois deste processo concluído, a própria Fundação terá um rendimento muito superior, que nos permitirá ter alguma autonomia financeira e também consideramos fundamental a recuperação do próprio Hotel, que está incluída neste concurso da concessão.
Como avalia a relação da Fundação com o próprio município da Mealhada? Pretende reforçar essa parceria?
Temos tido uma relação institucional ótima. Já reuni, não só com o sr. Presidente da Câmara variadíssimas vezes, mas também com os seus vereadores, assim como com várias equipas, desde a proteção civil à cultura. E temos sentido uma boa relação institucional. Eu acho que ninguém entenderia que não houvesse uma boa relação institucional entre a Fundação Mata do Bussaco e a Câmara Municipal da Mealhada. Estou muito otimista em relação a esta proximidade, acho que podemos fazer coisas em conjunto muito interessantes. Prova disso é que o sr. Presidente da Câmara, em dois meses, já cá veio variadíssimas vezes e eu também já reuni várias vezes na Câmara Municipal.
A educação ambiental é uma das missões da Fundação. Existem novos projetos previstos para envolver escolas e sensibilizar as gerações mais jovens?
Já reuni com várias universidades e estabelecimentos de ensino superior – Universidade de Aveiro, Escola Agrária de Coimbra, Politécnico de Coimbra, Instituto Miguel Torga -, numa perspetiva de ter uma maior proximidade, não só com apoio técnico – porque todas têm ligações ou cursos relacionados com a floresta ou com o ambiente – mas também pelo património edificado e histórico. Vamos estabelecer parcerias e protocolos com todos aqueles que tiverem interesse.
Também já foi aprovado em Conselho Diretivo um protocolo que vamos tentar estabelecer com todas as Câmaras do país, para que o Bussaco passe a ser um destino turístico, mas com um programa educativo destinado sobretudo aos jovens e aos idosos. Queremos criar aqui uma dinâmica diferente. As câmaras municipais têm passeios turísticos, é frequente por exemplo irem a Fátima, mas não é frequente virem ao Bussaco, e nós queremos, entre outros, fazer parte desse mapa turístico.
Temos também um espaço educativo, em que recebemos praticamente todos os dias jovens para ações relacionadas com a educação, nas áreas do ambiente e da floresta.
A Mata do Bussaco é também palco de eventos culturais. Parece-lhe adequado manter essa dinâmica?
Sim, nós estamos a fazer uma programação com a Câmara Municipal, com o setor da cultura; temos também algumas iniciativas pensadas, sempre com um especial cuidado, porque nem tudo se adequa a este espaço. Ou seja, temos pessoas que procuram este espaço sobretudo pelo silêncio e pelo ambiente e todas essas ações terão sempre que ser muito bem enquadradas e pensadas. Mas iremos fazer alguns apontamentos culturais, que estamos a calendarizar.
Que papel pretende que a Fundação desempenhe na promoção turística, primeiro do concelho da Mealhada e de forma mais alargada, da Bairrada, da Região Centro e do país?
Deve haver poucas coisas no mundo com tanto interesse como a Mata do Bussaco: interesse histórico, interesse florestal, construído, religioso e militar. Portanto, nós temos que conseguir projetar a Mata Nacional do Bussaco no plano internacional. Também no plano nacional é importante, porque é frequente encontrar pessoas que não conhecem o Bussaco.
Quando digo que há aqui um Convento que vai fazer 400 anos – a maioria dos países não tem essa idade -, com peças e obras de arte lindíssimas dessa época; que temos uma das maiores coleções da Europa de espécies dendrológicas – cerca de 250 espécies diferentes -; uma Via Sacra única no mundo, à escala de Jerusalém; fomos palco, na III Invasão Francesa, da Batalha do Bussaco, tendo o Duque de Wellington pernoitado neste Convento; temos o último palácio construído em monarquia e vamos ser agora a primeira floresta terapêutica da Península Ibérica e a quarta no mundo. Ou seja, argumentos para visitar o Bussaco e para que o Bussaco seja conhecido no plano mundial, há imensos. Agora, temos que aprender a comunicar e fazer esse esforço, para dar a conhecer este espaço, que é dos mais bonitos do mundo.
Defende que a Mata deve receber mais visitantes, uma vez que essa é uma importante fonte de rendimento?
Nesta fase, ainda não temos essa preocupação que penso, poderemos vir a ter no futuro, de excesso de carga e controlo das entradas. Mas nesta fase ainda temos capacidade para aumentar o número de visitas. Estimamos que, no ano passado, tenham estado na Mata, 350.000 pessoas. Temos capacidade para receber mais visitantes e provavelmente durante todo o ano, porque há aqui períodos em que há muito menos pessoas a visitar a Mata mas, mesmo durante o inverno, a Mata ganha características belíssimas e, portanto, também é uma oportunidade e vamos ter que conseguir convencer as pessoas a visitar-nos também nesse período.
O que gostaria que estivesse diferente na Fundação Mata do Bussaco dentro de cinco anos?
A minha estratégia passa por vários objetivos: recuperar o património edificado, investir na biodiversidade e na conservação da natureza, criar as melhores condições aos funcionários que trabalham cá, aumentar o quadro de pessoal porque nos faltam pessoas – sobretudo técnicos – em várias áreas, preparar a Mata para lidar com as alterações climáticas e apostar no turismo sustentável.
Quero também potenciar ainda mais a Mata Nacional do Bussaco para o exterior, colocá-la no mapa mundial, como destino turístico, no fundo, projetar o Bussaco como uma referência internacional, em matéria de conservação e turismo da natureza. Para além de adotar as melhores práticas de gestão que existem no mundo.
Havendo interesse, boa vontade e sensibilidade de todos os governantes, sejam locais ou nacionais, é possível fazer da Mata Nacional do Bussaco uma âncora do país em termos ambientais excecionais.


