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“Sou feliz a dançar”: Salvador Silva leva sonho ao Mundial

Aos 14 anos, Salvador Silva já sabe que a dança pode levar-nos mais longe do que alguma vez imaginámos. Foi há oito anos que entrou na Escola de Dança de Aguim, tornando-se o primeiro e, até hoje, único bailarino. Em julho, o talento e o trabalho deram-lhe um reconhecimento inesperado: conquistou o prémio de Melhor Bailarino do seu escalão no All Dance Europe, na Grécia. Agora, prepara-se para subir a um palco ainda maior. Em novembro, Salvador vai representar Portugal no Campeonato Mundial, em Orlando. Pelo caminho, enfrentou preconceitos e insultos, mas nada é mais importante do que a felicidade de dançar.

Salvador Silva foi o primeiro rapaz a entrar na Escola de Dança de Aguim. Oito anos depois, continua a ser o único bailarino, condição que em nada interfere com a vontade de manter viva a sua maior paixão.
Em julho, na Grécia, ganhou o prémio de Melhor Bailarino do seu escalão, no All Dance Europe. Agora prepara-se para representar Portugal no Mundial, que decorre em Orlando, nos Estados Unidos, de 19 a 23 de novembro.

Nem sempre foi fácil enfrentar os olhares, os dedos apontados, as cuspidelas e os insultos de quem ainda hoje associa o ballet às meninas. “Na escola, alguns colegas apoiaram-me, outros trataram-me mal, outros ficavam na dúvida se seria homossexual… Isso deixava-me triste e com raiva, porque era mentira”, conta o adolescente, hoje com 14 anos. Salvador foi respondendo da melhor forma que sabia, dançando. “Simplesmente, não respondo. Deixo as pessoas pensarem como elas querem. Não me importo com isso. Eu gosto mesmo muito de praticar ballet.”

Salvador começou, como qualquer criança, por experimentar diferentes atividades. “Andei em vários desportos, mas nenhum me entusiasmou. Um dia, uma menina da minha turma desafiou-me, «por que não experimentas ballet?». E eu adorei.”

Logo na primeira vez que vestiu o maillot e calçou as sapatilhas de ballet, sentiu-se “muito bem, porque era uma modalidade nova e havia uma forte possibilidade de eu gostar”.

Quando entra em palco, Salvador esquece os olhares e os comentários. Fica apenas a música, o movimento e a possibilidade de mostrar ao mundo o que mais gosta e melhor sabe fazer. “Primeiro fico nervoso, mas depois o que sinto é felicidade e liberdade para mostrar os meus sentimentos, o meu talento”, refere o bailarino.

“Ele transforma-se noutra pessoa quando dança”, manifesta a mãe, Vera Mendes, recordando um caminho nem sempre fácil. “No início, ele ainda pensou em desistir. A sua professora da escola primária acabaria por ter um papel fundamental, ajudando-o a lidar com os comentários menos positivos e apoiando-o para que fizesse o que mais gosta.”

Na Escola de Dança de Aguim, onde Salvador está há oito anos, a professora Ana Luís acompanha-o desde o início do percurso. “Ele sempre demonstrou muito interesse pela dança, o que ajuda imenso. Para além disso, é trabalhador, esforçado e atento às correções. Tem também uma aptidão natural e uma sensibilidade artística que se nota quando entra em palco.”

Salvador estuda na Escola Básica e Secundária de Anadia, cidade onde também reside. O treino ocupa-lhe cerca de seis horas por semana. Na Escola de Dança de Aguim, o ballet clássico representa entre 70 a 80% do trabalho. “É a base a partir da qual os alunos desenvolvem outras técnicas, como dança contemporânea, jazz, dança comercial, acrobática ou fusão”, explica Ana Luís. E é precisamente num estilo mais contemporâneo que Salvador se sente particularmente à vontade.

O espetáculo deste ano, apresentado pela Escola, é o que elege como preferido até agora. Centrado na história de diferentes mulheres, permitiu-lhe interpretar personagens e coreografias que estavam muito próximas daquilo de que gosta: “um estilo de dança mais forte, mais intenso”. É também essa força que Ana Luís vê nele. “Um bailarino é um atleta, cheio de força, e é simultaneamente um artista. Assim como há meninas que jogam futebol e gostam, também há rapazes que gostam de dançar. Fico feliz por o Salvador ser um deles.”

O prémio que ninguém esperava

Em julho, a Escola de Dança de Aguim levou um grupo de atletas à Grécia, para o All Dance Europe. A escola está habituada às nomeações. Noutras ocasiões, os alunos tinham conseguido atingir os objetivos mínimos exigidos pela competição. Mas o prémio de Salvador não estava nos planos.

Já tinham regressado a Portugal quando se realizou a gala final e foi em casa que, por curiosidade, assistiam à divulgação dos vencedores.

“Quando ouvimos o nome do Salvador, ficámos muito contentes, gritámos em casa como se estivéssemos lá!”, conta Ana Luís.

Mais do que um troféu, a distinção de Melhor Bailarino abriu-lhe uma nova porta: representar Portugal no All Dance Campeonato Mundial. E Salvador espera levar consigo colegas da Escola de Dança de Aguim.

A ida aos Estados Unidos não estava prevista. A ambição existia, mas os custos tornavam o sonho difícil. A participação no Europeu já representou um esforço financeiro significativo. Agora, para o Mundial, entre inscrição, viagens, estadia e refeições, a despesa ultrapassa os 1.500 euros por participante.
Salvador vai à frente. O prémio garantiu-lhe uma bolsa de inscrição no valor de 500 dólares, mas há ainda muito por pagar. E há outras seis ou sete bailarinas da turma que também querem integrar a comitiva.

A resposta da escola foi mobilizar a comunidade. Neste momento, vendem-se bolos, doces, regueifas e rifas; fazem-se sorteios e peditórios; procuram-se patrocinadores. “Está também prevista uma gala solidária, onde recriaremos o espetáculo de final de ano. Temos dois meses para cumprir o sonho”, frisa Ana Luís.

A professora sublinha que a Escola de Dança de Aguim, ligada à Associação Recreativa Aguinense (através da qual consegue apoios da Câmara Municipal de Anadia), tem cerca de 60 alunos e vai iniciar o nono ano letivo. É no Centro Social N.ª Sra. do Ó de Aguim que decorrem as aulas. “É um espaço alugado, mas estão sempre disponíveis para ceder gratuitamente o espaço para angariações de fundos, aulas extra, galas de natal, etc..”, sublinha a professora, lamentando que este tipo de dança não tenha nenhuma federação a suportá-la. “Só a dança desportiva. Nem ballet, nem contemporâneo… nada disso tem federação nem apoios do Estado, o que nos limita bastante.”

Mesmo assim, os alunos continuam a competir. E a escola escolheu o All Dance precisamente porque é uma competição que reúne vários estilos e não faz pré-seleção. “São também os valores em que acreditamos: que a dança é para todos”, afirma Ana Luís.

“O que causa entropia é a resistência dos adultos”

A história de Salvador Silva é também a história de uma mudança de mentalidade ainda em curso. Ana Luís diz que continua a ser difícil atrair rapazes para a dança. “Não porque não gostem. Até se verifica o contrário. A nossa escola promove aulas experimentais junto de crianças no pré-escolar, também trabalhamos com o ATL e, quer as meninas quer os meninos, divertem-se e demonstram interesse.” O que causa entropia é mesmo a resistência dos adultos. “Ouvimos a educadora: «O pai vai dizer logo que não; os pais vão reclamar».”

Vera Mendes conhece esse preconceito de perto. No caso de Salvador, não foram apenas comentários ocasionais. “Houve insultos, crianças que não quiseram ser suas amigas por ele ser bailarino, cuspidelas e até agressões físicas”, manifesta com alguma tristeza.

É uma realidade que quer Vera, quer o pai de Salvador, Paulo Silva, aprenderam a relativizar com o tempo. “Somos adultos e lidamos de outra forma com o que ouvimos. Mas uma criança ou um adolescente… é diferente.”

Ainda assim, os pais nunca quiseram que o filho desistisse daquilo que gosta. “Para nós, sempre foi pacífico. O importante era que ele se sentisse feliz e realmente vemos que ele é muito feliz a dançar.”
Também o irmão, de 18 anos, que joga futebol no SC Fermentelos, recebeu a escolha do irmão com naturalidade. “Ele gosta de futebol, eu gosto de dançar”, responde Salvador, desvalorizando qualquer preconceito.

Ana Luís acredita que Salvador pode ir longe. “Ele pode chegar até onde quiser chegar e estiver disposto a trabalhar.” Diz que tem o talento, a capacidade de trabalho, a sensibilidade artística e o espírito de sacrifício necessários. Mas também destaca o que não aparece nas fotografias nem nos prémios: “é divertido e amigo das colegas, está sempre disposto a ajudar.”

No Mundial, as expectativas são prudentes. “Estarmos presentes já é uma conquista com que não contávamos. Vamos essencialmente com solos, que são competições mais renhidas e difíceis, porque é onde há maior número de competição. As expectativas são essencialmente para eles melhorarem o que fizeram no Europeu e no Nacional, melhorarem a nota e a performance e tentar trazer algum prémio, isso também seria um bom bónus”, manifesta a professora.

Salvador quer dançar, “pelo menos, até aos 18 anos”, diz. Depois, logo se vê. À pergunta sobre sonhos, não fala de troféus nem de reconhecimentos. “Sou feliz a dançar.” E isso basta-lhe.

Venda de bolos, rifas e patrocínios, vale tudo para angariar fundos

Salvador e as colegas que integrarão a comitiva, rumo aos EUA, estão desde há algumas semanas a trabalhar individualmente, com vendas de bolos e doces e a fazer sorteios, para angariar fundos.
Salvador tem ajudado a avó a fazer bolos da Páscoa (conforme se comprova na foto que aqui publicamos), com fornadas a sair todas as semanas. “Aceitamos encomendas”, realça a mãe, Vera Mendes, acrescentando que “há muitas pessoas muito boas que nos tem ajudado. Temos pessoas que nos oferecem coisas, outras já nos deram dinheiro sem qualquer contrapartida… Temos mesmo muitas pessoas a ajudar e a fazer com que este sonho seja possível”.

A professora, Ana Luís, confirma que se está a “trabalhar ativamente para angariar o maior número de patrocínios possível”, apelando a que mais empresas se associem a este projeto, que “é de sucesso e nem sempre tem a visibilidade que merece”. “Estes miúdos vão a todo o lado do país e agora do mundo, há imensas famílias envolvidas, por isso não tenho dúvidas de que para os patrocinadores esta é uma parceria de sucesso”.