Há amores que o calendário não esquece. Em fevereiro, eles voltam sempre, como a chuva, como as camélias que despontam nos jardins do Norte. D. Pedro e Inês de Castro são desses. Portugal conta esta história há quase setecentos anos: a nossa versão de Romeu e Julieta, mas com mais sangue e menos poesia.
Tudo começa em 1355, Inês é assassinada por ordem de D. Afonso IV. O rei via na aia galega uma ameaça. Pedro nunca perdoou o pai. Mais tarde, já rei, mandou transportar o corpo da amada para Alcobaça. Como se isso pudesse reparar, enfim, o que em vida lhe fora negado.
Depois há o episódio do beija-mão ao cadáver coroado. Os historiadores dizem que é invenção de cronistas posteriores, malta que gostava de uma boa história. Mas a lenda persiste. Talvez porque gostamos de acreditar num amor que desafia a própria morte. Que coroa defuntos e manda beijar mãos que já não sentem nada.
Pedro ficou conhecido como Justiceiro ou Cruel, conforme quem contava a história. Ou talvez fosse só um homem a quem a vida roubou a única coisa que realmente queria.
E é isso que nos prende a esta história, passados séculos: a ideia de amar quando já nada há para salvar. Num tempo de pressa, faz falta quem amou assim.
