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Manuel Armando

Padre

Senhores, sim, mas não do tempo

É verdade! Por mais que queiramos, jamais seremos capazes de acompanhar o desenrolar do tempo. Inventaram-se os relógios de todas as cores e feitios. De corda ou a pilhas, eles continuam no seu sossego e cadência a dizerem a todos nós que fixemos os nossos olhos nos ponteiros, ouçamos os seus “tic-tacs”, mas que afastemos de nós a presunção humana de impedir que eles nos tornem mais idosos. O seu movimento é inexorável naquilo que representam. Pode faltar-lhes o mantimento próprio e, mesmo que parem no seu caminho, o tempo que eles pensam controlar continua impávido sem promessas de parar para nos dar a mão, seja no que for.

Nós é que estacionamos muitas vezes, alheios àquele que avança, indiferente.
Marcamos limites para as nossas ações de todos os dias. Por vezes, falhamos no cumprimento de determinadas tarefas e chegamos ao local de trabalho antes ou depois do que está acordado, mas nem aí o tempo se incomoda connosco.
Adquirimos calendários e agendas para marcações diversas de algo que exige a nossa presença em dias e horas certas. Todavia, o tempo não nos avisa de nada.

Só podemos e devemos refletir muito seriamente é se os nossos passos diários são ou não enquadrados nos prazos que terão sido estipulados aquando de qualquer acordo elaborado.

Estejamos acordados ou durmamos e o tempo, por si mesmo, não nos incomoda. Se dormimos, o tempo não nos vai dizer que somos diligentes ou dorminhocos. Os trabalhos a serem feitos é que nos podem acusar de não termos aproveitado o desandar do relógio que nos avisa dos deveres a cumprir.

É que a convivência laboral subentende o aproveitamento válido e regular dos elementos de trabalho para que também o resto da sociedade possa usufruir, em devido tempo, tudo a que tem direito e que provém da ocupação de emprego em tempo adequado de terceiros.
Enfim! Na verdade, o tempo é algo em que todos nós, querendo ou não, estamos inseridos para, em prazos precisos e concretos, podermos ter a consciência de que, enquanto estamos no tempo, construímos a Humanidade na fraternidade e paz do tempo.

Tenho várias coleções de relógios, mas percebo bem que de nada me servem. Parecem até estar todos com avarias irreparáveis porque eu não tenho tempo de lhes fornecer os meios de alimentação necessários.

Nos dormitórios de animais põe-se o alimento lá nos púcaros sem mais preocupações. Aos relógios, porém, não podemos dizer «tomem isto, ajeitem-se». Eles necessitam de forças que lhes são fornecidas e que ocupam o tempo de quem foi incumbido dessa tarefa.

Razão para o Deus Criador, Senhor do Tempo e da Eternidade, que não dá corda a relógios, mas concedeu-nos a vida para que tivéssemos tempo de nos tornarmos mais perfeitos do que somos ou julgamos ser.
Não seremos senhores do tempo, mas Deus, ainda nos vai concedendo algum, dividido e consignado em horas e minutos para elevação e utilidade em favor da comunidade.

É certo que, neste meu texto, não trago qualquer novidade para alguém, mas foi-me dado a mim um tempo de tomada de consciência.
Por esta oportunidade, obrigado, Senhor, pelo tempo que me deste para, mais uma vez, pensar que o tempo não é meu, mas que tenho de o aproveitar naquilo que me incumbe fazer.