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João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

Não foi o diabo, mas assustou

Passos Coelho apareceu e aterrorizou (quase) toda a gente. A esquerda, que treme sempre que ele fala. O governo, que tremeu ainda mais. E Ventura, que como disse Pacheco Amorim, poderá “diminuir ou anular a margem de crescimento” do Chega.

Sobre o novo Ministro da Administração Interna, discordo em absoluto da comparação feita com Mário Centeno. Logo porque é no sentido inverso – da administração pública para o governo – e quero os melhores no governo. Mais importante, porque Centeno esteve, enquanto governante, a preparar o seu futuro como governador do BP, para onde foi supervisionar o que tinha feito como ministro. Sobre Centeno, escrevi em Janeiro de 2025 a crónica “Centeno, o Fred Astaire das finanças”.

Passos também sugeriu que Montenegro devia ter tentado um acordo com o Chega e a IL. Esta ideia enferma de três problemas:

  1. Montenegro tinha de anunciar essa intenção antes das eleições – para não ser Costa – e provavelmente não as ganhava;
  2. Ventura não é de fiar – bem sei que Passos Coelho teve a demissão irrevogável de Portas, mas Ventura é de um outro patamar de deslealdades;
  3. As reformas que Passos reclama são impossíveis de fazer com populistas que, por definição, nunca querem assumir os custos políticos das reformas.

Imagine-se o que seria um governo de Passos Coelho com alguém que é contra a privatização da TAP, a concorrência na ferrovia, uma reforma laboral mais liberal ou que apresenta um aumento insuportável nas pensões.

Já sobre o governo de Montenegro, Passos acusa-o, com razão, de distribuir o que não há (tal como Costa) e de falta de vontade de mudar alguma coisa, de reformar (também como Costa).

Mas o que são reformas? São mudanças estruturais, profundas, mexendo com interesses instalados, daquilo que está mal e que não se altera com uma pequena alteração dum qualquer artigo numa lei.

O que está mal, todos sabemos e nos queixamos: a economia não cresce, a saúde está uma miséria, tal como a educação e a justiça, a burocracia é um cancro, a segurança social não se aguenta…

Para mudar o que está mal, são precisas três condições: primeiro ter essa vontade, segundo saber para onde se quer ir e por fim ter coragem de implementar as ideias, desagradando a interesses instalados. Isto é reformar o que está mal.

Montenegro mostrou até agora não cumprir nenhuma destas condições – ouvir Hugo Soares afirmar que uma descida de impostos e a alteração da lei da imigração são reformas é ridículo e a demonstração dessa evidência.

Montenegro devia ouvir as recomendações de Passos Coelho, em vez de o temer.

Portugal a crescer 0,4% em 2023 será trágico. Devíamos crescer 1,5% acima da média europeia, para convergir de facto. Agora que já distribuímos (desperdiçámos?) os subsídios, que reformas para melhorar a produtividade e o crescimento? Na reforma laboral, vai negociar para uma proposta minimalista ou vai confiar na competência técnica da sua ministra? É suficiente uma reforma do trabalho ou devia pensar numa reforma mais abrangente da economia? A saúde duplicou o orçamento em 10 anos: 20% deveu-se à inflação, 20% tecnologia e demografia e os restantes 60%? Na reforma do Estado não se conhecem ideias, não se reduz a despesa, mantém-se o excesso de regulação e ausência de simplificação administrativa.

“Sempre achei que é preferível enfrentar a consequência negativa do julgamento eleitoral fazendo alguma coisa que nos parecesse ser indispensável a pensar no futuro”.