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Anadia

Burros sapadores, uma experiência com futuro

Na aldeia do Amieiro, na freguesia da Moita, mas também em Ancas (UF de Amoreira da Gândara, Paredes do Bairro e Ancas), os burros estão a ajudar na limpeza dos terrenos, revelando-se importantes aliados na prevenção de incêndios. Um projeto inédito que pode vir a ser replicado noutras freguesias.

Amieiro, na freguesia da Moita (Anadia) foi a primeira aldeia serrana a receber o projeto piloto “burros sapadores”. Por lá têm andado duas burras (Madeixas e Azinhaga) e uma cria (Neemias), do criador Pedro Marques (Ancas), numa iniciativa inédita que chama a atenção não só para a preservação desta espécie, como também se está a revelar uma mais-valia na limpeza de terrenos em pousio.

O projeto dá os primeiros passos no concelho de Anadia. Na aldeia do Amieiro, na freguesia da Moita, mas também em Ancas (UF de Amoreira da Gândara, Paredes do Bairro e Ancas), os burros estão a ajudar na limpeza dos terrenos, revelando-se importantes aliados na prevenção de incêndios.

Numa iniciativa do Club de Ancas, através do projeto de valorização do burro enquanto património cultural da aldeia de Ancas, em maio começou a ser gizada uma nova ação designada por “burros sapadores”. Artur Castro, do Club de Ancas e um dos mentores do projeto, admite que a ideia acaba por replicar o que já vem sendo feito pela AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, de quem o Club de Ancas é parceiro e associado.
“A ideia foi inspirada num projeto que existe no planalto transmontano”, explica, mas adaptada ao território bairradino.

O objetivo é ajudar a reduzir a presença de material inflamável em áreas próximas das povoações e habitações, criando zonas de segurança contra a propagação de incêndios florestais.
“Os burros ajudam a manter os terrenos limpos e a reduzir a vegetação seca e o mato, sendo uma solução sustentável que alia a prevenção, o ambiente e a tradição”, frisa Artur Castro.

“O burro tem uma grande capacidade de procurar comida (come o equivalente a 10 ovelhas), acabando por limpar grandes áreas de terrenos”, avança dando conta de que “a limpeza é feita de forma sustentada, sem uso de maquinaria, com a vantagem da carga dos animais sobre os solos ser muito menor do que a de um trator, promovendo o combate à erosão e a permeabilização dos solos”, sem esquecer que ajudam a fertilizar os terrenos. Por outro lado, “acabamos por apoiar os criadores que precisam de amplas áreas para ter os animais com qualidade de vida”, acrescenta.

Experiência muito positiva

Os animais são mantidos em áreas vedadas e o seu bem estar é salvaguardado. Para além da vegetação e da água, têm sempre alguém que fica encarregue de lhes dar ração ou palha em complemento, assim como existe a preocupação de lhes serem disponibilizados abrigos, naturais ou construídos.
“O projeto é muito interessante, embora os burros que foram para o Amieiro já tenham dado algumas dores de cabeça porque no início tentavam fugir”, recorda Artur Castro.

Ali, a experiência já vai no terceiro mês e está a dar frutos. Numa aldeia com encostas íngremes, a limpeza dos terrenos não é tarefa fácil mas indispensável para proteger pessoas e bens nesta época de maior risco de incêndios florestais.

Manuel Neves, presidente da Junta de Freguesia da Moita, explicou que “assim que o projeto foi apresentado, o nosso interesse foi imediato”.

Num curto espaço de tempo, o projeto saiu do papel e passou para o terreno. “Ao início foi complicado, porque as pessoas não estavam habituadas a lidar com os burros, mas tem sido interessante”, reconhece, confessando que a vontade é de “continuar” e ver como os animais se comportam nestas zonas, como por exemplo em Fontemanha, outra povoação serrana da freguesia.

José Carlos Martins, vice-presidente da Associação Recreativa e Cultural do Amieiro, é um dos cuidadores dos três animais que por ali andam.

Reconhece que nas zonas serranas há muitos terrenos em pousio: “Os velhotes vão falecendo e os terrenos ficam abandonados”, admite, sublinhando que esta experiência tem sido “muito positiva” até porque os burros “fazem um bom trabalho, especialmente nas áreas mais próximas das habitações. Só é pena tentarem fugir”, diz entre risos, reconhecendo serem “animais muito dóceis e simpáticos”.

A experiência, está assim, a ter um feedback muito positivo. “Estamos a ter uma procura incrível”, diz Artur Castro sobre este projeto que o Club de Ancas coordena. “Eles substituem tudo o que é herbicida e máquinas. São um elemento natural que fertiliza o próprio terreno. Depois, o criador deixa de estar constantemente a fazer um esforço financeiro ao ceder temporariamente alguns burros a estas aldeias e locais de acesso mais difícil”.

Este responsável acredita que o burro pode voltar a ter um papel estratégico na gestão da paisagem rural, “pese a informação que tivemos da AEPGA que o Ministério da Agricultura não contemplou a limpeza de terrenos pelos asininos nas medidas de apoio ao pastoreio e limpeza de terrenos”.

Artur Castro destaca ainda que as comunidades locais começam a perceber que há uma vantagem real em ter estes animais por perto. “No meio rural, os burros podem ajudar a prevenir incêndios. O gratificante é precisamente isso: estamos a falar de um tipo de animal que dá a identidade ao território e que pode ser utilizado para ajudar as comunidades”.

Por isso, acredita que este é um projeto que pode ganhar escala e ser replicado noutras freguesias e zonas rurais.

“Quem sabe, se no futuro, com apoio do município de Anadia, se possa pensar na perspetiva de os criadores virem a ter apoios para este tipo de dinâmica, ou seja, replicar este projeto noutros locais ameaçados pelos incêndios rurais. Aliás, o projeto brevemente será monitorizado para o estudo da AEPGA, através de equipamentos GPS e câmaras de vigilância, para garantir o controlo de dados do pastoreio efetuado por cada animal”.

Enquanto essa ideia vai amadurecendo, o Club de Ancas, através dos cuidadores, já está a dinamizar a parte recreativa do burro, que “exportou” para a Festa do São Gonçalinho, em Aveiro, para Fermentelos e para Cantanhede. “Este ano, houve burros de Ancas na Queima das Fitas, em Coimbra”.

O que explica a empatia que se voltou a ter pelos burros em Ancas

A Corrida de Burros no dia 17 de agosto pode, em parte, explicar a empatia que se criou na aldeia à volta deste animal. Em vários pontos da localidade, as referências (pinturas e instalações artísticas) aos burros atestam essa empatia. “A corrida tornou-se mediática e deu grande visibilidade a Ancas, motivando um conjunto de pessoas a receberem os animais”, explica Artur Castro.
À semelhança do que já vai acontecendo noutras regiões, os passeios com burros e a componente pedagógica e até terapêutica poderá vir a fazer toda a diferença na dinamização da aldeia, que começa também a ganhar visibilidade na área do turismo e do enoturismo, com investimentos particulares em curso.
Por exemplo, os “burritos” feitos pela Oficina do Club Sénior do Club de Ancas já são uma imagem de marca da aldeia, servindo como ofertas nas atividades e artesanato e até O Desportivo de Ancas aderiu à mascote feita pelas idosas da aldeia, que a personalizam com as cores do clube (azul e amarelo).

Corrida de Burros no Atlas do Património Imaterial

O Club de Ancas tem estado em conversações com a Câmara Municipal de Anadia, UF de Amoreira da Gândara, Paredes do Bairro e Ancas, mas também com a comissão que está a organizar as festas de Ancas (agora constituída como Associação Festas de Ancas) no sentido de efetuar um registo da tradicional Corrida de Burros, enquanto património imaterial.

O desejo é ver esta corrida inscrita no Atlas do Património Imaterial, a plataforma oficial do Património Cultural, I.P. que reúne informações sobre bens imateriais classificados em Portugal, como tradições, expressões orais, eventos, celebrações, entre outros.

O professor que virou criador em Sangalhos

Foi na “Zurrabalia dos Santos”, em Sangalhos, que o docente, Luís Santos, nos falou desta sua paixão. Nascido no campo, desde criança manteve contacto com estes animais. Mas foi quando fez 50 anos que os colegas do Agrupamento de Escolas de Anadia lhe ofereceram um burro. Ernesto, de nome, já era um burro velho quando chegou a casa do professor: “já era bastante velho, mas muito mansinho”, recorda. O animal acabou por fazer as delícias da família e de todos os que com ele se cruzaram. “Chegou a fazer duas Feiras Medievais em Anadia”, recorda sobre este primeiro burro que acolheu e que morreu de velhice.

Pouco tempo depois veio uma fêmea, a Estrelinha (na foto) “de muito boa qualidade”. Revelando que este “hobby” tem custos elevados (ração, palha, serviços de veterinária – vacina, desparasitação, problemas de pele), para cobrir as despesas, optou por se dedicar à criação. Uma decisão que o levou a adquirir um macho, o Zacarias, para poder avançar com a reprodução. O “casal” já teve crias. Luís Santos, que ficou com uma cria da Estrelinha, batizada de Dama, avança que também esta burra já teve duas crias, a última (um macho) nascida em maio, ainda sem nome, já prometido para Óis da Ribeira, mas só depois de desmamada.

Todos os burros que já vendeu ficaram por perto, em Ancas, Amoreira da Gândara e Fogueira.
A paixão pela espécie é notória no entusiasmo e carinho com que fala destes animais “muito dóceis, afáveis, brincalhões, mas cada um com uma personalidade muito própria”, e que nada têm de burros. “Pelo contrário, aprendem com muita facilidade e como todos os outros, gostam de ser bem tratados”, frisa.

Os animais nascidos na sua propriedade não têm raça específica, mas ali por casa todos têm Passaporte/Documento de Identificação de Equídeos Verde que permite que possam ir para qualquer país da Europa, explica, reconhecendo que para um criador esta atividade acaba também por ser “uma prisão”. “Sempre que quero sair tenho de arranjar alguém, que me substitua no tratamento, dar comida, já que a água está automatizada”.

Questionado se ter um burro está na moda, admite que a procura tem aumentado e, portanto, talvez até esteja na moda: “devo dizer-lhe que já vendi um burro para um presente de casamento”. E se há dois anos se registou um período de estagnação, agora nota-se uma retoma na procura. Depois, confessa, por vezes notar também “algum exagero no protecionismo” em relação aos animais. “As pessoas esquecem-se que o burro começou por ser um extraordinário auxiliar nas tarefas agrícolas”, lamentando que se pense que ter um animal destes “é ter um animal aprisionado”.

A terminar, deixa um conselho a quem pense adquirir um burro: “até com as crianças são muito afáveis, mas a pessoa tem de saber que de manhã, antes de ir para o emprego, tem de ir ver se está tudo bem e que à tarde terá de fazer o mesmo, ou dar mais um suplemento (pasto, fardos ou outra coisa) ao animal. Os burros comem mesmo muito. Mas são muito dóceis e quando são acarinhados, acarinham. E só dão coices quando são maltratados, não tenho dúvidas”.