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Armando Humberto Pinto

Professor Catedrático da Universidade de Aveiro

O acesso ao Ensino Superior

O acesso ao ensino superior está este ano envolto em polémica. Os atrasos na divulgação das classificações criaram ansiedade entre milhares de estudantes e famílias. Mas, por mais mediáticos que sejam estes atrasos, representam apenas uma pequena parte das dificuldades que hoje enfrentam os candidatos ao ensino superior. O verdadeiro desafio começa quando as notas são conhecidas e chega o momento de escolher um curso.

Vivemos um paradoxo que merece reflexão. Portugal continua a apresentar uma taxa de desemprego jovem cerca de três vezes superior à taxa de desemprego global. Ao mesmo tempo, empresários e instituições repetem não conseguir encontrar trabalhadores qualificados. Como é possível coexistirem empregos por preencher e jovens com dificuldade em encontrar trabalho? A resposta está, em grande medida, no desencontro entre a formação e as necessidades da economia. Temos empregos sem pessoas e pessoas sem emprego. É um dos maiores desafios do país e devemos refletir sobre a forma como orientamos os jovens nas escolhas académicas e profissionais.

A universidade representa, para muitos, a última etapa da preparação para a vida ativa. A missão da universidade não se limita a formar trabalhadores. Compete-lhe formar cidadãos livres, críticos e capazes de compreender o mundo. Mas também não pode ignorar que a maioria dos estudantes investe anos da sua vida na expectativa legítima de conquistar independência financeira e construir uma carreira. Para muitas famílias, esse investimento representa um enorme sacrifício, feito com a esperança de proporcionar aos filhos um futuro melhor.

Por isso, a escolha de um curso deve ser feita com ambição, mas também com realismo. Nem sempre o caminho aparentemente mais fácil ou mais sedutor conduz às melhores oportunidades. É essencial refletir sobre as perspetivas de empregabilidade das diferentes áreas e desenvolver competências que permitam entrar no mercado de trabalho, crescer profissionalmente e adaptar-se à mudança. A frustração surge quando, depois de 12 anos de escola, três de licenciatura e, muitas vezes, mais dois de mestrado, um jovem descobre que o emprego tarda em aparecer ou que o salário está longe de compensar o investimento realizado.

Contudo, seria um erro concluir que tudo depende da escolha do curso. O mercado de trabalho transforma-se a uma velocidade sem precedentes e muitas das profissões de amanhã ainda nem existem. Mais do que um diploma, contarão a capacidade de aprender continuamente, de resolver problemas, trabalhar em equipa, comunicar e inovar. Essas competências dependem tanto do curso ou da universidade como da atitude, da curiosidade, da responsabilidade e do empenho de cada estudante.

Durante muito tempo acreditou-se que bastava entrar na universidade para garantir um futuro melhor. Hoje sabemos que a realidade é bem diferente. O ensino superior continua a ser um poderoso instrumento de mobilidade social, mas apenas quando é acompanhado por escolhas informadas, mérito, esforço e uma formação alinhada com as necessidades da sociedade.

Aos jovens que agora iniciam este percurso deixo ainda um conselho: aproveitem parte das férias de verão para estagiar, contactar com empresas e conhecer a realidade do mundo do trabalho. Essa experiência ajuda a confirmar vocações, desenvolver competências e facilita a transição para a vida profissional.

Mais importante do que entrar na universidade é sair dela preparado para encontrar o seu lugar na sociedade e construir um futuro com liberdade, responsabilidade e esperança.