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Guilherme Freire

Estudante e membro da JS Oliveira do Bairro

O valor de quem pensa diferente

Convivemos, em Oliveira do Bairro, com um status quo político que se instalou há muito. E talvez por convivermos com ele há tanto tempo, deixámos de reparar numa certa segregação, sobretudo de ideias, que dele foi resultando. Não se trata de apontar culpados, nem de julgar quem vota como vota, mas de olhar com honestidade para algo que nos diz respeito a todos.

Para que uma democracia funcione, tem de haver quem seja eleito e quem se lhe oponha, tal como, por analogia com a economia, tem de haver oferta e procura. Ora, o que acontece em Oliveira do Bairro desde 12 de dezembro de 1976, data das primeiras eleições autárquicas, é uma procura – os eleitores – à qual a oferta – o eleito – nunca muda. Isto gera um défice: o espaço social torna-se escasso no que toca a visões diferentes, e desse estreitamento nascem astigmatismos políticos e de valores.

Esta segregação política alimenta-se de vícios enraizados na cultura de Oliveira do Bairro, em que a conversa de café dá lugar à hostilidade perante certos grupos, transformando-se em atitudes que deixam cerca de 10% dos eleitores do concelho à margem. Isto não são apenas números: são pessoas – jovens, adultos e idosos –, cada uma um ser individual a quem não deveria ser retirada a voz por medo da sua opinião ou da reação que possa provocar no outro.

Martin Luther King afirmou que “para que a democracia possa viver, a segregação tem de morrer”. King liderou o boicote aos autocarros de Montgomery, cidade do estado do Alabama, onde durante décadas a voz da população negra foi silenciada – onde sentar-se à frente num autocarro era visto como uma afronta e onde muitos foram presos por protestarem pacificamente pelos seus direitos cívicos. Não comparo, como é evidente, a nossa realidade com a violência daquela segregação – seria uma injustiça para com quem a sofreu. Mas a luta de King continua, à sua maneira, a ser necessária: sempre que uma comunidade silencia quem pensa de forma diferente, empobrece-se. E o país dá sinais que não podemos ignorar. Segundo as Estatísticas da Justiça, os crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência registados em Portugal passaram de 132 em 2020 para 421 em 2024, um aumento superior a 200% e o valor mais alto de que há registo.

O populismo é real, não é uma invenção da esquerda nem um conceito tirado dos livros, mas uma forma concreta de ver, exprimir e agir perante as situações. E há aqui uma distinção importante, que o próprio King fazia: não se deve confundir resistência passiva com não-resistência. A verdadeira resistência não-violenta não é uma submissão ao poder do mal, é a confrontação corajosa do mal pela força da compaixão. A convicção de que mais vale ser objeto da violência do que o seu autor, como o foi Jesus ao morrer na cruz por expressar o amor de Cristo perante um regime totalitário. É também por isso que muitos de nós, em Oliveira do Bairro, damos importância aos valores cristãos, e ainda bem. Vale então a pena perguntarmo-nos se a forma como vivemos a política local está à altura da mensagem e da atitude de Jesus que dizemos seguir: a do acolhimento e da inclusão, e não a da exclusão de quem é diferente.

Uma democracia mais saudável não exige que ninguém mude de convicções, pede apenas que pensar de forma diferente deixe de ser visto como um problema.