Vive experiências naturais e surpreendentes qualquer pessoa que corre estradas e avenidas, entra em becos e ruelas, admira cidades e aldeias na labuta de todos os dias. Isto não é novidade para ninguém.
Também se descobre que, nestas corridas dos dias atormentados por milhentos problemas que nos absorvem o tempo e a atenção, não gozamos de tantas riquezas e circunstâncias, simples ou complicadas, que se nos deparam à nossa frente nos mais diversos campos ocasionais e inesperadas que, só depois do acontecido, obtemos o sentido da sua importância aberta e feliz ou adversa e irrelevante que experimentamos mais ou menos diretamente com proveito ou detrimento para alguns de nós.
Ora, de tudo quanto acontece, nada deveria parecer estranho a ninguém, aquando das situações humanas criadas em momentos circunstanciais com mais ou menos apreço, pois até fazem parte do nosso viver constante de permanente convívio com outros indivíduos de caráter mais próximo ou totalmente desconhecidos.
Há até quem, muitas vezes, presume conhecer casualmente determinadas pessoas que caminham ou se encontram no mesmo lugar de interesse daquele momento.
As faces do tempo mudam, de forma abrupta, em cada um de nós que vivemos também frequentemente embrulhados no nosso eu quase egoísta quando, com frequência, somos considerados como que desinteressados do mundo que nos rodeia, determinando factos inesperados ou conhecidos.
Podemos deduzir a desatenção com que, em inúmeras ocasiões, caminhamos. Vamo-nos abstendo de tudo e todos porque nos habituamos a viver a sós como se não necessitássemos da presença de ninguém. Cruzando-nos com alguém que nos saúda porque imagina conhecer-nos, ao menos de vista, ou nos confunde com outra personagem vamos sobrevivendo sem aproveitarmos alguns grandes momentos que poderiam tornar-se em vivências úteis e enriquecedoras. Aí continuamos a omitir, distraidamente, os dotes pessoais e carismas de que somos enriquecidos, desperdiçando o ensejo de continuarmos a crescer como homens de e para a verdade.
Por tudo, neste destemperamento com que acolhemos a preguiça da reação, vamos compreendendo as separações, as lutas e guerras, o abandono do semelhante, os tiros e as mortes, tanto longe como entre nós, a violência, quando não se dialogam os projetos e as esperanças.
Esta minha reflexão singela veio-me à atenção meditativa, como fruto de encontro totalmente fortuito, mas que tomou sentido profundo, ainda que parecendo apenas divertido.
Explico: – abeirei-me do meu carro estacionado, abri a mala para lá colocar umas coisas que havia comprado, momentos antes. Outro condutor parou atrás de mim e alguém me queria impor pressa para lhe deixar espaço na sua manobra. Que espere, pensei eu, no meu silêncio. Terminada a minha tarefa, saiu ele do seu automóvel, dirigindo-se a mim a perguntar se estava tudo bem ou se eu necessitava de ajuda. Pedi desculpa como se, porventura, tivesse causado algum embaraço ou transtorno ao que ele, sorrindo amavelmente para mim como se nos conhecêssemos, mutuamente e há anos, respondeu não ter prioridade. «Mas eu tenho, disse, porque sou prior». Rimo-nos.
Ali se iniciou um diálogo, dando-nos a conhecer quem éramos, o que fazíamos, donde provínhamos e tudo quanto queiram agora imaginar. Trocámos “galhardetes” e após o que dissemos um ao outro, sem reservas nem vergonhas, trocámos dados pessoais e combinámos encontros futuros. Abraçámo-nos fraternal e efusivamente. E cada um seguiu o seu caminho.
Os encontros fazem-se, as conversas são frutuosas reciprocamente e cada um agradece a Deus o dom da compreensão e paz que pode até ser retemperada num qualquer encontro assim tão fortuito e banal.
