Portugal habituou-se a olhar para o ensino secundário como antecâmara da universidade. Nos cursos científico-humanísticos, essa lógica é compreensível. No ensino profissional, a missão é outra: garantir escolaridade e formar para uma profissão. É essa diferença que estamos a deixar desaparecer.
Um jovem que conclui um curso profissional deve poder entrar no ensino superior. Impedir-lhe esse caminho seria absurdo. Mas uma coisa é manter a porta aberta; outra é transformar essa porta no destino. Quando o sucesso de uma escola profissional começa a medir-se pelo número de alunos que chegam à universidade, a via profissional perde identidade e converte-se numa versão alternativa do ensino regular.
A pergunta é inevitável: se o objetivo principal é continuar a estudar, para que serve afinal o ensino profissional?
O problema é também económico e político. Para 2026/2027, os dois avisos do PESSOAS 2030 para cursos profissionais mobilizam 235,2 milhões de euros, dos quais 200 milhões do Fundo Social Europeu Mais. É dinheiro público para qualificar jovens e aproximar a formação das necessidades da economia.
O escândalo não está no montante. Estaria em gastá-lo sem perguntar que qualificações estamos a financiar e que valor produzem.
Uma rede de formação não pode resultar apenas do que as escolas conseguem abrir, do que é mais barato manter ou do que atrai mais candidatos. Se cada instituição privilegiar os cursos para os quais já tem professores, evitando áreas caras ou técnicos difíceis de recrutar, cada decisão poderá ser racional isoladamente e o resultado coletivo profundamente irracional.
É uma espécie de Lei de Gresham aplicada à formação: incentivos mal desenhados fazem a oferta mais fácil expulsar a oferta de que o país precisa.
Depois, surpreendemo-nos com empresas que não encontram técnicos e setores sem mão de obra qualificada. E abrimos mais cursos, sem perguntar se são os cursos certos, nos lugares certos e com a exigência certa.
Há uma confusão mais funda: continuamos a tratar certificação como sinónimo de qualificação.
A OCDE mostrou que 42% dos adultos portugueses entre os 16 e os 65 anos se situam no nível 1 ou abaixo em literacia e 40% em numeracia. Isto não permite culpar o ensino profissional. Mas obriga a reconhecer algo mais sério: um diploma não prova, por si só, que alguém domina as competências que deveria certificar.
Um técnico qualificado não é quem frequentou três anos de aulas. É quem interpreta uma instrução técnica, calcula, comunica, resolve problemas, utiliza ferramentas, compreende processos, aprende novas tecnologias e assume responsabilidade pelo que faz.
Se o curso entrega um diploma sem garantir isto, não qualificou. Certificou.
Portugal passou demasiado tempo a confundir a subida estatística das qualificações com a subida real das competências. Um país não fica mais qualificado porque aumenta o número de cidadãos com o 12.º ano ou um título académico. Fica mais qualificado quando esses cidadãos sabem mais, fazem melhor e transformam conhecimento em valor.
Para isso, a rede de cursos precisa de planeamento plurianual, prospetiva de competências, especialização, avaliação séria dos resultados e participação estruturada das empresas. Não para entregar a escola à economia, mas para impedir o absurdo contrário: chamar “profissional” a um sistema em que a profissão se torna secundária.
A escolha é simples. Queremos uma via exigente, tecnologicamente avançada, prestigiada e capaz de formar jovens que aos 18 ou 19 anos dominem uma profissão, podendo depois continuar a estudar? Ou queremos uma segunda via para chegar ao mesmo lugar, multiplicando diplomas e adiando o encontro com o trabalho?
Se escolhermos a segunda, continuaremos a celebrar certificações, execução financeira e acesso ao ensino superior. E continuaremos a perguntar onde estão os técnicos de que o país precisa.
Talvez a resposta seja esta: não os estamos a formar. Estamos a formar alunos para continuarem a ser alunos.
