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Salvador Carvalho

Estudante de Relações Internacionais na FEUC

E se o carro não fosse prioridade?

Estando este trimestre a estagiar no centro da Europa, deparo-me com algumas tendências que me deixam preocupado com o atraso de Portugal. Algo tão simples como a valorização do peão e da bicicleta no contexto citadino revela uma diferença que vai muito além da mobilidade, revela uma diferente forma de pensar a cidade.

Em Bruxelas, andar de bicicleta não é apenas uma alternativa ao carro. É uma parte normal da vida urbana. Há ciclovias, estacionamento, semáforos e, sobretudo, uma cultura de respeito pelo espaço de quem se desloca sem carro. O peão também não é um obstáculo ao trânsito, é quem deve ter prioridade.

Em Portugal, continuamos demasiadas vezes a desenhar cidades à medida do automóvel. Passeios estreitos, ciclovias que desaparecem, carros estacionados onde não deviam e uma ideia persistente de que retirar espaço ao carro é “prejudicar” quem conduz.

O mais preocupante é que isto não exige uma revolução tecnológica. Exige vontade política, planeamento e a coragem de reconhecer que uma cidade não deve ser construída apenas para quem tem um carro. Portugal tem cidades bonitas, compactas e com condições para fazer muito melhor. Falta-nos, talvez, deixar de perguntar como podemos adaptar a cidade aos carros e começar a perguntar como podemos adaptá-la às pessoas.