Assine já

André Chambel

Presidente da CP Concelhia do CDS de Oliveira do Bairro

Cem anos depois: o que esquecemos sobre o 28 de Maio?

Passaram cem anos sobre o golpe militar de 28 de Maio de 1926 e ninguém notou ou fizemos por esquecer?

O 28 de maio de 1926 é uma data que continua a suscitar leituras divergentes e que, por isso mesmo, exige um exercício de memória rigorosa e honesta.

Ninguém pode negar que a República atravessava um período de profunda instabilidade política, social e económica. A sucessão de governos, as divisões partidárias, a violência política, as dificuldades financeiras e a incapacidade das instituições para responder aos problemas do país, alimentavam um sentimento generalizado de incerteza e abandono. Muitos portugueses olhavam para o regime com desconfiança e cansaço.

Foi nesse contexto que o golpe militar encontrou terreno fértil. Os seus promotores apresentaram-se como restauradores da ordem, da autoridade e da estabilidade. Prometeram pôr fim à confusão política, às disputas partidárias e ao ambiente de permanente crise que marcava a vida nacional.

Mas a História obriga-nos a olhar não apenas para as causas, mas também para as consequências.

O 28 de Maio interrompeu, de facto, um período de instabilidade. Contudo, aquilo que instaurou não foi a solução democrática para os problemas do país. Foi a suspensão da própria democracia. Em nome da ordem, restringiram-se liberdades, se bem que muitas já não fossem plenas. Em nome da unidade nacional, eliminaram-se divergências, se bem que antes eram resolvidas à lei da bala. Em nome da estabilidade, silenciaram-se vozes discordantes, se bem que antes eram caladas contra a parede ou em qualquer viela.

A Ditadura Militar e, depois, o Estado Novo, construíram uma sociedade onde a crítica era vigiada, a oposição perseguida, a imprensa censurada e a participação política limitada. A instabilidade deu lugar à imobilidade. A incerteza foi substituída pela ausência de escolha. A violência política não desapareceu; mudou de forma, passando a ser exercida a partir do próprio Estado sobre aqueles que ousavam pensá-lo diferente. Por isso, a ideia de que o 28 de Maio representou simplesmente uma resposta necessária ao caos republicano é uma simplificação perigosa.

Uma sociedade não se torna mais livre porque troca a desordem pela obediência. Não se torna mais justa porque substitui o debate pelo silêncio. Ou se torna mais forte porque concentra o poder nas mãos de quem se considera providencialmente destinado a governar.

Talvez a maior lição deste centenário esteja precisamente aí.

Ao longo da História, os períodos de crise e descontentamento têm frequentemente servido de palco ao aparecimento dos chamados salvadores da pátria.

Homens providenciais, líderes ungidos, ultrapassar as divisões da sociedade e impor soluções rápidas para problemas complexos. O discurso muda de época para época, mas a lógica permanece surpreendentemente semelhante: as instituições são apresentadas como obstáculos, o pluralismo como fraqueza e a democracia como fonte de desordem.

A promessa é sedutora. Menos discussão, mais decisão. Menos conflito, mais autoridade. Menos política, mais eficácia.

Mas a experiência histórica ensina-nos que esses caminhos raramente conduzem à liberdade. Pelo contrário.

Cem anos depois, recordar o 28 de Maio não é celebrar nem condenar simplificadamente. É compreender. É reconhecer as fragilidades da nossa democracia sem esquecer que o remédio escolhido nem sempre, ou quase nunca, é o que parece mais fácil e simples.

E quando os predestinados querem ser porque sim, resta-nos pô-los à prova e questionar: porquê tu?