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João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

Pacote laboral e as evidências

A saga do pacote laboral mostrou que o governo não é capaz de controlar a mensagem. De explicar o que era. De fazer ver às pessoas para que servia. Em vez de identificar uma meia dúzia de vantagens que esta reforma traria às pessoas, à economia e ao país, optou – ou não evitou – que se falasse antes das polémicas. Assim, ninguém ficou a saber o que perdeu. Porque o foco ficou nas medidas e não nos seus propósitos ou nos seus efeitos positivos, mesmo que a longo prazo.

Discutiram-se medidas e não vantagens. Deixou que a narrativa da esquerda prevalecesse. A de que o governo queria fazer mal às pessoas. E, claro, as lágrimas televisivas do líder da CGTP – onde é que já chegámos, quando até os comunistas lançam lágrimas de comoção das galerias do parlamento.

É pena, porque se desperdiçou uma reforma – entre outras necessárias – importante para a competitividade, aumento dos salários e da riqueza e melhor empregabilidade no país.

Mas por outro lado deixou-me satisfeito – ou diria antes, esperançoso – porque deixou mais uma vez à evidência de todos que Ventura não é um parceiro confiável para ninguém. E não o é especialmente para o PSD – que quer substituir. Continua a deixar-me espantado como é que tal não é evidente para Montenegro e companhia. Ou melhor, é óbvio que é claro. Eu é que não consigo descortinar qual é a estratégia do PSD.

Ventura mostrou, mais uma vez, que não é de fiar. Na véspera da votação, o PSD acreditou mesmo em Ventura quando lhes disse que ia votar favoravelmente o pacote laboral. De tal forma que Hugo Soares gritou para a bancada do PS (mas quem sabe, com pensamento em Passos Coelho) que a reforma ia mesmo avançar. Mas no dia da votação, foi o que se viu. Até dentro da própria bancada do Chega, só metade sabia que Ventura tinha mudado o sentido do voto – cómico.

Mas mostrou também a todos aquilo que alguns de nós já desconfiávamos: é que na economia, Ventura é de esquerda. Parecia que estava a ouvir o PCP: a defesa de quem trabalha, o governo desvaloriza o trabalho, facilitar despedimentos, mais férias, redução da idade da reforma. Esta última ideia da baixa da idade da reforma seria suficiente para o governo virar costas a qualquer conversa com Ventura.

De uma vez por todas, o PSD tem de assumir que o PS e o Chega não estão no mesmo patamar. O PS quer ganhar eleições ao PSD. Quer destroná-lo do poder. Mas não quer eliminar o PSD.

Já Ventura, para chegar ao poder, precisa de destruir o PSD. Sem acabar com o PSD, Ventura não chega a primeiro-ministro.

O PS é um partido alternativo de governação. O Chega é um partido de desgoverno. Qualquer tentativa de acertar uma negociação com Ventura, tem de ter esta premissa.

Note-se que nesta conjuntura, é mais natural o PS e o Chega votarem em conjunto, porque são oposição ao governo. É da essência da democracia. Por outro lado, qualquer acordo entre AD e Chega, serve apenas os interesses do Chega. O governo tem de governar. O Chega quer desgovernar. Não há chão comum.

Sempre que Montenegro segue as bandeiras de Ventura, não recupera eleitorado. Mostra-se subalterno a Ventura. As sondagens mostram-no. Passos Coelho tem razão!

E.T.: Este anúncio do fundo soberano deixou-me siderado. Nem Pedro Nuno Santos ia tão longe nesta ideia de intervenção do Estado na economia. Até nos esquecemos que somos pobres. Só me lembro de Jorge Gonçalves, o bigodes, ex-presidente do Sporting: “temos tudo acertado para comprar o Rijkaard. Só falta o dinheiro.”