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João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

Quem precisada política vs de quem a política precisa

Tenho Pedro Delgado Alves como um deputado e comentador sério e educado.

Não acompanhei as cerimónias parlamentares do 25 de Abril, pelo que fiquei surpreso quando percebi que tinha virado as costas ao Presidente da AR.

Que teria dito Aguiar Branco assim de tão grave, para levar Delgado Alves àquela atitude? Convenhamos que é uma postura mais esperada de Ventura e seus capangas, do que de um deputado do PS – mesmo que da vertente esquerda Pedro Nunista.

[Bom… na verdade Delgado Alves fez parte dos “jovens turcos” do PS, com Pedro Nuno Santos, Duarte Cordeiro e João Galamba (só este último não foi líder da JS), então um grupo de Costistas que o ajudaram no ataque a Seguro quado era secretário-geral do partido. Há quem diga que aquele grupo se enganou e devia estar no BE. E há até os cínicos que dizem que só ficaram no PS, porque o BE estará sempre longe do poder efetivo. Mas isso já foi há muitos anos. Eram jovens. E todos muito amigos. Ao passo que agora…].

Enfim, fui ouvir os 14’ do discurso de Aguiar Branco e fiquei surpreendido por não o ouvir defender menos transparência nem o fim do dos conflitos de interesses, entre outros “títulos de imprensa” que me tinham passado pela frente.

Na verdade, o discurso começa pela constatação – que convém reforçar – de que a esmagadora maioria dos portugueses querem e gostam do regime em que vivemos, como ficou claro nas últimas eleições. Aponta ao discurso fácil do Chega, usa expressões desta agremiação como “pouca vergonha das mordomias dos políticos”. A ideia populista de políticos puros que querem tomar medidas contra os outros políticos.

Falou de assuntos proibidos, como o facto dos políticos ganharem mal para aquilo que se espera deles e de como precisamos pagar melhor, para termos os melhores – if you pay peanuts, you get monkeys.

Denuncia que a febre contra as “portas giratórias” leva a que só os mesmos estejam na política: ninguém entra, ninguém sai, apenas trocam de lugares na administração pública e cargos políticos. Evidencia que o regime de incompatibilidades é hoje tão apertado que obriga à profissionalização dos políticos. Chama à atenção que, por via duma visão exacerbada do conflito de interesses, quem conhece profissionalmente uma área, não a pode tutelar politicamente – por exemplo, um empresário não vai tutelar a economia. Desvaloriza o interesse em saber se o Rui Tavares tem os filhos num colégio ou o António Filipe vai à CUF. Condena a ideia de que os políticos estão a esconder qualquer coisa. De que, ao contrário de outros cidadãos, presume-se um político culpado que tem de provar a sua inocência. E termina avisando que estes remédios populistas fecham a política aos que já lá estão. Fazem-na mais fechada às elites de fora da política.

Pede que se alargue o acesso à política para que a política não seja um clube, e possa melhorar trazendo mais pessoas com qualidade.

Foi um discurso marcante e corajoso, em tempos de clips sem contexto de 10” no tik tok, com Ventura como alvo claro. Mas surpreendentemente foi a esquerda (aquela esquerda que começa na esquerda do PS e passa pelo Livre, BE e PCP) que tomou as dores da mensagem de Aguiar Branco. Uma carapuça que eu não esperava que enfiassem.

O comportamento do Delgado Alves foi afinal mal criado e ofensivo para a Assembleia da República. Pode discordar o que quiser. Tem esse direito. Mas não deve desrespeitar a 2.ª figura do Estado. É um garoto, afinal. Que se comporta como os rufias do Chega.