A recente visita de Estado do Presidente da China Hu Jintao, serviu essencialmente para formalizar acordos comerciais e contratos empresariais no valor de 718 milhões de euros e a promessa de compra da nossa dívida soberana. Os negócios da china, segundo a cultura popular, são bons para uma parte e muito maus para a outra. Ninguém compra dívida sem se pagar convenientemente em juros. Ninguém compra parte das nossas empresas sem ter o fito de as controlar. Vendemos os anéis para mantermos o padrão de conforto a que nos habituámos em vez de baixarmos o nosso nível de gasto. Mas, devemos também reflectir, entre o pragmatismo dos negócios chineses e a defesa dos valores ocidentais, como a liberdade, o direito a um trabalho digno não escravizado, etc.
A transigência ocidental para com o sistema chinês tem sido apenas motivada pelo dinheiro fácil do negócio, fechando os olhos ao tráfico comercial, procurando manter os produtos baratos no ocidente à custa do desemprego e da deslocalização das empresas. Um negócio sujo que ignora a exploração de mão-de-obra barata sem direitos sociais, originada na coexistência dum capitalismo sem regras com um socialismo repressivo e ditatorial.
Esta é a China dos dois sistemas de Deng Xiaoping, que compagina o mais moderno e vanguardista com o que mais retrógrado e obscuro que ainda perdura no planeta. Esta é a China que mantém níveis de pobreza inimagináveis no continente a par de centenas de novos-ricos com tiques do mais abastado e corrupto capitalismo em metrópoles como Xangai.
Só não percebo o comportamento rasteiro dos nossos políticos que tão ufanamente lutaram contra regimes, que no ocidente cresceram economicamente (como a China) a meio do século XX em ditaduras ou regimes autoritários. Exemplos o Chile, a Espanha, Portugal. Só espero, que como em Portugal, o povo chinês, que começa a ter hábitos burgueses, faça implodir o regime dos dois sistemas. Nessa altura a crise será ainda maior do que é hoje acrescida pela vergonha de termos tolerado esta ignomínia.