“Sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida nas mãos de uma criança.” Já passaram quase três décadas desde que Alberto Ventura ousou sonhar uma vida mais risonha e colorida. Ele, confesso sonhador, saiu da Vimieira (Casal Comba, Mealhada) recém-casado, feliz por ter a seu lado quem consigo partilhasse uma aventura noutro continente. Alberto e Lala construíram a sua vida em Newark, New Jersey, EUA. São felizes e têm “dois filhos maravilhosos”: Erika, de 25 anos, e Ayrton, de 15.
Alberto Ventura é responsável, desde 2000, pela revisão de projetos e concessão de licenças de construção, no Gabinete de Engenharia da Cidade de Newark. Subiu a pulso, contando apenas com o seu currículo e competência. Sem cunhas nem padrinhos.
Ainda em Portugal, tirou o curso de Técnico de Construção Civil na Escola Secundária Avelar Brotero, em Coimbra e, no princípio do ano de 1983, concorreu ao cargo de fiscal de obras (3.ª categoria) para uma Câmara Municipal na Bairrada. “Fui informado por alguns funcionários camarários que não valia a pena ficar à espera do resultado, pois as vagas já estariam a ser preenchidas. A forma como me foi dito deu-me motivos para acreditar que, sem «padrinhos», o caso estaria arrumado.” Alberto Ventura gosta pouco de se lembrar desse episódio, mas a verdade é que passar por essa situação lhe deu força para acreditar nas suas capacidades e que podia chegar longe contando apenas consigo próprio.
Enquanto solteiro, uma experiência como ajudante de canalizador/eletricista nas horas vagas, para ajudar a pagar estudos e divertimentos, permitiu-lhe depois começar a vida nos Estados Unidos, enquanto a esposa, Lala, se empregava numa fábrica de costura.
A forte comunidade portuguesa e um inglês corrente ajudaram a uma boa adaptação. Alberto continuou os estudos, à noite, e tirou os cursos de Canalização e Construção Civil.
Aventurou-se como profissional autónomo na canalização, enquanto concluía outros cursos de formação, que o colocaram novamente no caminho de um concurso público. “Não dispunha de quaisquer ajudas, contava só com o meu currículo e competência e, em setembro de 2000, fui chamado a ocupar o cargo de chefia do Gabinete de Engenharia da Cidade de Newark na minha área – Canalizações, Aquecimentos, Energias Renováveis, etc.”.
Contacta diariamente com inúmeros imigrantes, portugueses, espanhóis, latinos… “Entre a comunidade portuguesa de Newark, existem muitos empresários bairradinos na área da construção civil, hotelaria, indústria automóvel, etc.. E por aqui há muitos restaurantes que se aprimoram na confeção do Leitão à Bairrada”, afirma.

Patriotismo e autoflagelo. Alberto Ventura sente-se profissionalmente realizado. Mas os projetos para voltar para a sua terra, onde todos os anos passa as férias revendo família e amigos, estão sempre em mente. “Deixar para trás a nossa família, a nossa terra, desperta nos emigrantes um sentimento de patriotismo misturado com autoflagelo. Todo o emigrante sabe que pode voltar à sua terra natal a qualquer momento, mas vai deixando o tempo passar, esperando que os problemas do mundo se resolvam, para voltar de vez.” Alberto e Lala esperam pela reforma “como quem risca na parede da sua cela o calendário para a liberdade”. “Quando a nossa filha se mudou para longe [Ann Arbor, Michigan], sentimos na pele o que fizemos passar aos nossos pais, mas temos consciência de que a sua opção foi pessoal e não por imposição ou desespero.”
Alberto Ventura ficou “chocado” quando, há umas semanas atrás, ouviu o nosso primeiro-ministro dizer que emigrar podia ser uma forma de escapar à crise e ao desemprego. “O senhor primeiro-ministro nunca se deve ter imaginado chorando baixinho antes de dormir, pensando que qualquer dia destes poderia receber um telefonema informando que aqueles a quem mais amamos e foram sacrificados pelo nosso desejo de sonhar e ser alguém, já partiram… Passaram a vida toda na espetativa de ver os filhos voltarem e de os receber mais uma vez com os olhos rasos de lágrimas… Esse sim é o flagelo que corrói as entranhas do coração de quem parte e de quem fica ao mesmo tempo.”
Até à data, o inesperado telefonema não aconteceu. “Somos gratos a Deus”, desejando um dia ter direito a um merecido e prolongado abraço, que só a emoção de anos de saudade consegue explicar…
Oriana Pataco