Mara Freire foi reconhecida, em outubro, pela Sociedade Americana de Química, como uma das cientistas mais influentes na área da Engenharia Química e Industrial. A investigadora da Universidade de Aveiro, com raízes no concelho de Oliveira do Bairro, foi o primeiro membro desta Universidade a conquistar uma bolsa do European Research Council, em 2013, Conselho Europeu que, há poucos dias, voltou a premiá-la. Na entrevista que concedeu ao JB, a bairradina de 40 anos fala-nos do seu dia na Universidade e das razões que a levaram a nunca querer sair do país, sequer da sua região.

JB: A Mara Freire tem sido reconhecida, nacional e internacionalmente. Fale-nos um pouco do seu percurso e o que terá pesado no âmbito do seu trabalho de investigação, para chegar até aqui.
Mara Freire: Nós trabalhamos na interface de três áreas principais: Química, Engenharia Química e Biotecnologia.
A nossa investigação é maioritariamente focada no desenvolvimento de processos alternativos e mais sustentáveis para a purificação de biofármacos. Estes biofármacos são produtos biológicos, que poderiam substituir os fármacos sintéticos tradicionais, e muitas vezes são a única alternativa para doenças crónicas da sociedade atual, como cancro, doenças neurodegenerativas, doenças autoimunes, etc.. Esta problemática foi também o que me levou a ganhar a bolsa de investigação atribuída pelo Conselho Europeu de Investigação [bolsa de 1.4 milhões euros para fins exclusivos de investigação].
O grande problema destes biofármacos é serem atualmente muito dispendiosos. A título de exemplo, para o tratamento de cancro de mama com quimioterapia, que nos EUA ronda os 150 dólares, se este mesmo tratamento for realizado com biofármacos – ou seja, anticorpos monoclonais -, os custos ascendem a 180 mil dólares/ mês e por paciente.
Os biofármacos existem, mas são produzidos em meios biológicos complexos e portanto não existem técnicas de purificação eficazes e de baixo custo, que os façam chegar ao mercado como alternativas competitivas. Grande parte do meu trabalho de investigação tem incidido nesta parte da purificação de biofármacos, de modo a tentar reduzir o custo destes produtos e torná-los acessíveis a uma população mais vasta.
Este reconhecimento pela Sociedade Americana de Química advém essencialmente da minha carreira académica, na qualidade da investigação que tenho realizado e no impacto que tem tido na restante comunidade académica, o que pode ser avaliado pelo número de citações relativamente ao que publico em termos científicos.

(…)

Há algum projeto ou sonho que gostasse de concretizar?
Sonho científico é que de facto o que aqui desenvolvemos possa um dia chegar ao mercado, que possa atuar em prol da sociedade e possamos ter biofármacos de baixo custo e acessíveis a grande parte da população. Acho que este é o sonho de qualquer cientista.

Leia a entrevista completa na edição de 16 de janeiro de 2020