O temporal de Janeiro de 2013 arrasou o Parque da Alta Vila, no centro de Águeda, um espaço que está a ser requalificado pela Câmara Municipal de Águeda. Entre os destroços das muitas árvores que caíram estava o tronco de um cedro que, agora, renasce como uma peça de escultura, trabalhada pelas mãos do conhecido artista Paulo Neves.

O escultor entregou já a peça, que vai ficar instalada temporariamente no largo do Centro de Artes de Águeda (CAA) até ser transferida para o seu local de origem, o Parque da Alta Vila.

“Lançámos o desafio ao Paulo Neves de encontrar a energia desta árvore e perpetuar esta raiz”, disse Jorge Almeida, presidente da Câmara Municipal de Águeda, no momento de recepção da peça, acrescentando que vai ficar exposta junto ao CAA até que estejam concluídas as obras “que estão a ser ultimadas” no Parque da alta Vila. “Esta magnífica peça ficará instalada num local distinto, num verdadeiro memorial a todas as árvores que caíram naquele temporal”, frisou o Edil.

A peça, com cerca de duas toneladas, foi trabalhada pelo artista de Cucujães (Oliveira de Azeméis) durante um mês, num processo criativo onde os sentidos são apurados. Paulo Neves, que se dedica a esta atividade há quatro décadas e com trabalhos espalhados pelo mundo (a mais recente teve como destino a Tailândia), diz que “foi um prazer enorme trabalhar esta árvore”.

Ao início, quando viu a árvore e o estado em que se encontrava, pensou “que estaria toda podre. Mas comecei a descascar e percebi que aqui estava uma madeira fabulosa”, relatou, acrescentando que o processo criativo começou nesse instante. “Esta é uma árvore que, possivelmente, iria para o lume. Conseguimos salvá-la e foi transformada e eternizada numa peça de arte. Ressuscitou”, disse, ficando muito satisfeito com o facto de o seu destino ser “o local onde nasceu”.

Motivos que justificam o nome atribuído à peça: “Raiz com Alma”. Tanto onde agora (temporariamente) está como no Parque da Alta Vila, Paulo Neves espera que a escultura possa ser “experimentada”. Isto porque, defende, “a escultura é uma arte tridimensional: é para ser tocada, cheirada e sentida”.

O artista usou as suas “armas” para esculpir o cedro, nomeadamente rebarbadeira, formões, lixas, goivas e machados, mas a peça não tem qualquer tratamento, “está ao natural” para que possa, precisamente, “ser apreciada na sua forma original”.

Refira-se que Paulo Neves nasceu em 1959. Embora tenha frequentado a Escola de Belas Artes do Porto, em Portugal, a sua aprendizagem foi, na tradição moderna europeia, exclusivamente autodidacta. Partiu muito jovem à descoberta do mundo, conheceu artistas, visitou museus, descobriu outros mundos, experiência que influenciou a obra que tem vindo a realizar.

Durante a década de 90 do século XX, revelaria a sua maturidade artística, afirmando-se hoje como escultor internacional de referência nacional incontornável. Com peças em diversas colecções, privadas e públicas, portuguesas, e estrangeiras, nomeadamente nos Estados Unidos, França, Espanha, Brasil, Holanda, Bélgica, Roménia, Austrália, Marrocos, Alemanha, Tailândia, Austrália e Japão.