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Águeda // Sociedade  

Águeda vive dia de memória e homenagem pelas vítimas dos incêndios de 1986

Na Castanheira do Vouga, palco central das cerimónias, decorreu a formatura das corporações de bombeiros de Águeda e do distrito. O momento mais marcante foi a evocação dos 13 bombeiros e 3 civis falecidos, assinalada pelo grito de “presente” por cada uma das vítimas da tragédia de 1986.

Águeda assinalou, no domingo, os 40 anos dos trágicos incêndios de 1986, que vitimaram 13 bombeiros (nove de Águeda e três de Anadia) e três civis, com um conjunto de cerimónias evocativas marcadas pela emoção, pelo silêncio e por fortes apelos à responsabilidade coletiva na prevenção de incêndios.

A iniciativa, promovida pelo Município de Águeda e pelos Bombeiros Voluntários de Águeda, contou com a presença do Ministro da Administração Interna, Luís Neves, e teve início com a visita à exposição “A Última Floresta”, patente no Largo Dr. António Breda, que convida à reflexão sobre o impacto dos incêndios e a necessidade de mudança de comportamentos.

Seguiu-se a deposição de uma coroa de flores junto ao monumento no Quartel dos Bombeiros de Águeda, num gesto simbólico de homenagem às vítimas.

Na Castanheira do Vouga, palco central das cerimónias, decorreu a formatura das corporações de bombeiros de Águeda e do distrito. O momento mais marcante foi a evocação dos bombeiros e civis falecidos, assinalada pelo grito de “presente” por cada uma das vítimas da tragédia de 1986.

Jorge Almeida, presidente da Câmara Municipal de Águeda, sublinhou a dimensão marcante da tragédia, recordando que “há coisas que se impõem pela violência com que nos marcam” e que o dia 14 de junho de 1986 “nos marcou de uma forma absolutamente determinante”. Quatro décadas depois, afirmou, “é uma vez mais o momento de nos inclinarmos com todo o respeito por todos aqueles que pereceram”, incluindo sobreviventes e famílias que continuam “marcados na carne e na alma”.

O edil destacou que “hoje é um dia de recolhimento e de respeito, quase em silêncio”, defendendo que a evocação deve ser feita “com a tranquilidade de percebermos que aprendemos com esta experiência”. Ainda assim, deixou um alerta: “depois de 1986 foram vários os grandes incêndios que nos têm vindo a assolar e não aprendemos tanto como isso”, sublinhando que a responsabilidade não é apenas das autoridades, mas de toda a sociedade.

“Esta missão de nos protegermos e de protegermo-nos uns aos outros é um trabalho de todos”, afirmou, acrescentando que “não podemos estar à espera que o Governo ou o presidente da câmara façam tudo aquilo que todos nós temos que fazer”. Nesse sentido, apelou a uma mudança de comportamento dos cidadãos, alertando que “há pessoas que, a troco de coisas muito simples, esquecem rapidamente o risco em que se colocam e que colocam os outros”.

Jorge Almeida destacou ainda a necessidade de uma intervenção estrutural na floresta, defendendo que “precisamos efetivamente de tratar da floresta” e explicando que o concelho e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, a que preside, tem vindo a implementar uma estratégia assente em quatro eixos: proteção das populações, ordenamento e gestão integrada, reforço dos meios de combate e valorização económica da floresta. “Se fizermos tudo bem feito, vamos ver resultados daqui a algum tempo, bastante tempo”, afirmou, sublinhando a necessidade de consistência e perseverança.

O presidente da Câmara de Águeda deixou também um apelo direto aos proprietários. “Precisamos de retirar a floresta da beira das casas”, defendendo que cada cidadão deve assumir o seu papel. “Que cada um, em vez de estar à espera que seja o vizinho a fazer, dê o exemplo”, afirmou.

Também o Ministro da Administração Interna reforçou a dimensão simbólica e prática da evocação. Luís Neves considerou que este é “um momento de introspeção, de silêncio pela dor do que aqui se passou”, mas também “um momento de vida”. O governante defendeu que “recordar não basta, é preciso aprender, melhorar todos os dias” e sublinhou que “a melhor forma de honrarmos aqueles que aqui perderam a vida é retirar consequências da história”.

Num discurso marcado pela ideia de unidade, acrescentou ainda que “somos uma só nação, um só país”, frisando que a proteção civil é uma responsabilidade transversal, reforçando a ideia transmitida pelo Presidente da Câmara de Águeda de que “este é um trabalho de todos, todos, todos”.

A dimensão local da memória foi evocada pelo presidente da Junta de Freguesia de Castanheira do Vouga, Vítor Silva, que classificou a tragédia como “uma cicatriz gravada na memória de Águeda, da região e de Portugal”. Quatro décadas depois, disse, “o tempo não apagou o silêncio que se abateu sobre esta serra”, lembrando que “não há maior prova de amor do que dar a vida por aqueles que nem sequer conhecemos”.

Já Manuel São Bento, presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Águeda, destacou o espírito de missão dos operacionais, afirmando que “os bombeiros vivem do altruísmo, da coragem silenciosa e da abnegação absoluta”. Sublinhou ainda a importância da segurança, defendendo que “a melhor forma de honrar os que tombaram é garantir que cada bombeiro regressa a casa em segurança”.

Também Isabel Silva, presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Aveiro, evocou a união entre territórios, recordando que, na noite da tragédia, “Águeda e Anadia não foram dois concelhos separados, foram um só coração”, acrescentando que “o sacrifício daqueles que partiram é a bússola que nos guia”.

Durante a cerimónia, a Liga dos Bombeiros Portugueses distinguiu os estandartes das associações humanitárias dos Bombeiros Voluntários de Águeda e de Anadia com a atribuição do crachá de reconhecimento grau ouro. A distinção, entregue pelo comandante Vítor Machado, representa “um reconhecimento perpétuo da comunidade bombeira portuguesa pelo heroísmo demonstrado, pela coragem dos que tombaram e pela forma exemplar como estas corporações souberam preservar a memória dos seus homens”.