O som da motorroçadora faz-se ouvir a alguns metros de distância. Na Rua Principal de Montelongo da Areia, Aurélio Monteiro já está ao serviço. É isto que mais gosta de fazer: cortar a erva. Nem sempre foi assim. Quando começou, o barulho das máquinas assustava-o. Com o tempo, foi perdendo o medo e apanhou-lhe o gosto.
Aurélio Monteiro tem 42 anos, é casado, pai de sete filhos e trabalha na Junta de Freguesia de Oliveira do Bairro. Integra atualmente a equipa operacional ao abrigo da medida EAMA (Emprego Apoiado em Mercado Aberto), depois de uma primeira experiência através do programa +Inclusão do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).


Na Junta de Freguesia de Oliveira do Bairro, Aurélio e Vítor Monteiro são dois exemplos de integração através do trabalho. Vítor, de 25 anos, entrou em 2024. “Quem me ensinou a trabalhar com as máquinas foi o meu tio Aurélio. Para mim, ele é um exemplo”, conta.
Rui Barqueiro, secretário da Junta de Freguesia, explica que a contratação surgiu através de programas promovidos pelo IEFP. “Aproveitámos esta oportunidade porque precisamos de operadores e, ao mesmo tempo, porque acreditamos que é importante integrar estas pessoas no mercado de trabalho.”
A experiência, garante, tem sido positiva. “São pessoas normalmente estigmatizadas pela sociedade. A nossa preocupação é que as pessoas olhem para esta etnia e vejam que são iguais aos outros.”
Aurélio fala com orgulho do trabalho que desempenha. “É importante que vejam que os ciganos trabalham. Muitas vezes vamos pedir emprego e dizem-nos logo que não.”

Agradece à Junta de Freguesia, por esta oportunidade, que também lhe trouxe maior estabilidade. Hoje faz descontos para a Segurança Social, conseguiu comprar um plasma e, mais recentemente, um carro, ou seja, começou a construir uma vida diferente e procura transmitir aos filhos a importância do trabalho, estando dois deles já empregados.
O seu sonho, confessa, “era ter uma casinha fora da comunidade e viver lá sozinho com os meus filhos”.
Também Ricardo Monteiro encontrou no trabalho uma oportunidade de estabilidade. Tem 31 anos, é casado, pai de três filhos e trabalha na Câmara Municipal de Oliveira do Bairro.

Encontramo-lo, naquela manhã, na Caneira, Vila Verde. “Faço de tudo. Hoje, estou a pôr alcatrão frio, também ponho calçadas. Gosto de trabalhar e faço o que me pedem”, afirma. A esposa também trabalha na autarquia, igualmente através de uma medida do IEFP. “É um bom exemplo para os filhos. Quero que tenham um futuro melhor do que o meu.”
João António Ferreira, colega de trabalho, não lhe poupa elogios. “O Ricardo trabalha bem, está sempre bem-disposto e faz parte da equipa. É uma pessoa como nós.”
“Trabalhamos para todos”
Estes percursos individuais resultam de um trabalho que o Município de Oliveira do Bairro tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos.
Duarte Novo acredita que as novas gerações – “a minha, dos 40/50 e as que nos sucedem” -, já estão mais preparadas para lidar com esta realidade e já aceitam esta integração. Mas isto, frisa, “tem de ser um trabalho contínuo”.
O autarca considera que a integração passa pela criação de oportunidades, mas também pela participação ativa na comunidade. “Temos de criar condições para que estas pessoas possam construir estabilidade e fazer parte da sociedade.”
Numa altura em que a população cresce acima da média em Oliveira do Bairro, “temos de demostrar que é seguro, que quem cá reside, mesmo que seja de outra cultura ou etnia, tem valores, pode estar integrado e que podemos todos conviver”, manifesta Duarte Novo.
Para o presidente da Câmara, o compromisso de qualquer autarca “é de trabalhar para a sua sociedade, para todos. E para que todos se sintam bem, é importante que exista segurança, trabalho, educação, saúde”. A sua grande preocupação, reforça, é “que as pessoas sintam que existem direitos, mas que têm igualmente responsabilidades. Tem sido essa a génese dos nossos projetos e que têm sido bem acolhidos pelos nossos técnicos.”
Também a Santa Casa da Misericórdia de Oliveira do Bairro tem contribuído para esse percurso.
Daniel Monteiro Mendes, casado e pai de quatro filhos, trabalha há quatro anos na instituição, onde desempenha funções na manutenção, nas áreas de jardinagem, eletricidade, canalização, entre outras.

A contratação surgiu por indicação de António Viegas, tesoureiro da Mesa Administrativa, que já conhecia o seu percurso. A provedora, Leontina Novo, admite que a experiência ajudou a desmontar alguns preconceitos. “Foi uma descoberta perceber que aquele estigma de que os ciganos não querem trabalhar não corresponde à realidade. O Daniel é um de nós e mostrou aos restantes colaboradores que, quando existe oportunidade, as pessoas respondem positivamente.”
E essa oportunidade “não deve ser descartada sem conhecermos primeiro a pessoa. Independentemente da sua raça, religião ou nacionalidade, é uma pessoa que vem pedir trabalho, responde a uma entrevista, submete-se a um período experimental… é igual para todos”.

Daniel não esconde o orgulho na sua identidade. “Sou cigano e tenho muito orgulho em ser cigano. E nós gostamos de trabalhar”, deixa bem vincado.
O salário permitiu-lhe tirar a carta de condução, comprar uma carrinha e reorganizar a vida familiar. Agora, pensa sobretudo no futuro das filhas. “Gostava que um dia também tivessem um trabalho, como eu.”
“Vim de baixo para cima”
Mas talvez seja na história de Inês Monteiro que melhor se percebe a mudança que estas oportunidades podem representar para as gerações mais novas e principalmente para as meninas/mulheres ciganas.

Com apenas 20 anos, Inês trabalha desde fevereiro como ajudante de cozinha no restaurante O Lampião, em Fermentelos. Vive sozinha, tem contrato de trabalho e fala das suas tarefas diárias com naturalidade. “Faço saladas, frito batatas e ajudo no que é preciso. Ainda não sei tudo, mas estou a aprender.”
Foi na Junta de Freguesia de Oiã que deu os primeiros passos no mercado de trabalho. O bom desempenho levou a uma recomendação para ingressar no restaurante.
Paula Simões, gerente a acumular atualmente funções de cozinheira d’O Lampião, admite que a decisão obrigou a ultrapassar alguns receios iniciais. “Pensámos, eu e o meu marido, duas ou três vezes. Mas
decidimos dar uma oportunidade à Inês, porque também vinha bem recomendada, por um grande amigo nosso, Valter Matos, que estivera na junta de freguesia.”
A adaptação tem sido gradual “à custa” de muita paciência. Inês chegou sem conhecer utensílios, ingredientes ou procedimentos básicos de cozinha. “Tudo é novo para ela. Mas o mais bonito é a vontade que tem de saber, de aprender”, refere a empresária.
Também Patrícia Oliveira, a trabalhar n’O Lampião há mais de uma década, reconhece os receios iniciais. Porém, “quando a conhecemos, percebemos que é igual a nós. Tem apenas uma realidade e uma morada diferente.”
Descreve Inês como uma jovem meiga, trabalhadora e sempre disponível para aprender. A própria Inês reconhece a transformação que este emprego permitiu. “A minha vida mudou completamente. Vim de baixo para cima.”
Inês foi a primeira mulher da sua comunidade cigana (Oiã) a trabalhar. Com um salário regular, sonha tirar a carta de condução e comprar uma casa. Para já, sente que a sua experiência está a produzir efeitos junto de outras jovens da comunidade cigana. “Uma menina olhou para mim e disse: quando tiver 18 anos, também vou começar a trabalhar.” Sorri ao recordar o episódio. “As meninas olham para mim e veem independência. Veem que eu sou sozinha, mas sei-me virar.”
Dia Nacional do Cigano
O Dia Nacional do Cigano assinala-se em Portugal a 24 de junho, coincidindo com as festas de São João, uma data particularmente importante para esta comunidade.
A efeméride pretende promover o reconhecimento da cultura cigana, da sua história e identidade, e destacar a presença da maior minoria étnica da Europa, presente no nosso país há mais de cinco séculos.

