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Economia // Negócios & Empresas  

RODI investe 18 milhões para produzir rodas “100% made in Aveiro”

A RODI concluiu um investimento industrial de cerca de 18 milhões de euros que lhe permite controlar, pela primeira vez, todo o processo de fabrico de uma roda de bicicleta, reforçando a autonomia produtiva, reduzindo a dependência de fornecedores asiáticos e consolidando o posicionamento da empresa no segmento premium.

Desenvolvido no âmbito da AM2R – Agenda Mobilizadora para a Inovação Empresarial do Setor das Duas Rodas –, integrada no PRR, o investimento foi apresentado no dia 30 de junho, nas instalações da empresa, em Eixo (Aveiro), numa sessão que reuniu representantes da Estrutura de Missão Recuperar Portugal, da CCDR do Centro e da câmara de Aveiro, além de parceiros científicos e tecnológicos e empresas do consórcio.

Com este projeto, a RODI passou a produzir internamente os cubos das rodas – componente até agora maioritariamente importado da Ásia –, completando um ciclo produtivo que torna possível fabricar uma roda integralmente em Aveiro.

Armando Levi, CEO da RODI, enquadrou o investimento na estratégia de longo prazo da empresa, dando nota que, apesar da quebra de cerca de 50% registada pelo mercado das bicicletas desde o segundo semestre de 2023, sobretudo na Europa, a opção passou por continuar a investir. “Acreditamos muito no setor e continuamos a acreditar que a mobilidade elétrica veio para ficar”, afirmou, lembrando que o objetivo passa por recuperar, até 2030, o volume de faturação que o grupo alcançava antes da recente reorganização societária.

Fundada em 1952, a RODI está hoje presente em cerca de 80 países, emprega 350 trabalhadores e exporta praticamente toda a produção da divisão de ciclismo. É atualmente o maior fabricante europeu de aros para bicicleta, com uma capacidade instalada superior a três milhões de unidades por ano e cerca de 400 mil rodas, embora disponha de capacidade para praticamente duplicar esta última produção.

Segundo Armando Levi, foi a crise de abastecimento provocada pela pandemia que levou a empresa a decidir “fechar o ciclo da roda”. “Chegámos a um ponto em que não vendíamos rodas porque não tínhamos cubos”, recordou. A resposta passou por desenvolver internamente aquele componente: “Fabricávamos os aros, fabricávamos os raios, não fabricávamos os cubos. Lancei à equipa o desafio de desenvolver do zero um cubo para bicicleta.” O objetivo era posicionar a RODI no segmento médio-alto, apostando num produto premium e demonstrando que, através da automatização e de tecnologia de ponta, era possível competir com os fabricantes asiáticos.

“Estamos a falar de um investimento de cerca de 18 milhões de euros em tecnologia de ponta”, salientou o CEO, acrescentando que o enquadramento na AM2R “permitiu arrancar mais rapidamente” e beneficiar da colaboração das universidades no desenvolvimento de um produto “muito complexo”, de elevada exigência técnica e com tolerâncias de fabrico extremamente reduzidas.

Rémi Silva, diretor financeiro da RODI, explicou que a candidatura ao PRR nasceu da vontade da administração de concretizar projetos há muito idealizados. “No dia seguinte já estávamos todos reunidos para perceber que projeto podíamos construir”, lembrou. O investimento acabou por ultrapassar o montante inicialmente previsto, refletindo a opção por equipamentos mais eficientes, sustentáveis e tecnologicamente avançados, muitos deles associados à inteligência artificial.

A transformação da unidade industrial traduziu-se na construção de 5.500 metros quadrados de novas instalações, na instalação de 48 equipamentos produtivos e no desenvolvimento de 19 novos produtos. Entre os principais investimentos destacam-se mais de seis milhões de euros aplicados em centros de maquinação de elevada precisão para a produção de cubos, uma nova unidade de anodização, orçada em cerca de 2,5 milhões de euros, novos laboratórios de ensaio e uma ETARi – Estação de Tratamento de Águas Residuais Industriais –, que representou um investimento próximo dos 700 mil euros. “O objetivo era que a RODI conseguisse fazer uma roda completa, 100% made in Aveiro”, resumiu.

A estratégia definida para 2030 passa pela produção anual de 100 mil conjuntos de cubos e 180 mil conjuntos de rodas, pelo aumento da faturação em, pelo menos, 15 milhões de euros associado aos novos produtos e pelo reforço das equipas técnicas.

Ribau Esteves considerou a RODI um exemplo daquilo que, na sua ótica, deve ser o modelo de inovação apoiado pelos fundos europeus, defendendo que “quem tem de andar à frente deste processo não são as universidades; quem tem de liderar são as empresas privadas”. Para o presidente da CCDR Centro, a cooperação entre empresas, universidades e entidades públicas é um fator determinante para aumentar a competitividade. Ribau Esteves voltou ainda a defender uma maior simplificação administrativa dos mecanismos de financiamento, reconhecendo que a burocracia continua a representar um dos maiores obstáculos ao investimento empresarial.

Ainda assim, salientou que os diferentes instrumentos atualmente disponíveis permitem criar condições favoráveis ao crescimento económico e elogiou o trabalho desenvolvido pela Estrutura de Missão Recuperar Portugal. “Hoje voltámos à RODI para confirmar que, sabendo lutar, aproveitando as oportunidades e acreditando que os problemas são desafios para ultrapassar, é possível construir empresas mais fortes”.

Também Pedro Almeida, vereador da câmara de Aveiro com o pelouro do Desenvolvimento Económico, classificou o investimento como “uma afirmação de confiança em Aveiro, na indústria portuguesa e no futuro”. Para o autarca, “o verdadeiro motor da inovação em Aveiro é a colaboração” entre empresas, universidade e município, permitindo competir “não pelo preço, mas pela inovação; não pela escala, mas pela inteligência; não pela imitação, mas pela criação”.

Já Fernando Alfaiate, presidente da Estrutura de Missão Recuperar Portugal, recordou que a AM2R representa um investimento superior a 214 milhões de euros, apoiado pelo PRR em cerca de 114 milhões. Na sua perspetiva, “o maior legado que fica deste projeto é a capacidade de investigação e desenvolvimento instalada na empresa”, destacando que o reforço do departamento de I&D, a contratação de novos engenheiros e a incorporação de equipamentos avançados de ensaio permitirão à RODI continuar a desenvolver novos produtos muito para além da conclusão do financiamento europeu, reforçando a competitividade da empresa e do setor.

Com este investimento, a empresa aveirense reforça a sua posição e dá um passo decisivo para consolidar uma produção de maior valor acrescentado, assente em tecnologia própria, inovação industrial e cooperação entre empresas, universidades e entidades públicas, continuando a afirmar Portugal como uma referência europeia na indústria das duas rodas.