O Festival do Bacalhau arrancou esta quarta-feira, 12 de agosto, no Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré, e prolonga-se até domingo, dia 16. Na cerimónia de abertura, Rui Dias aproveitou a presença do ministro da Agricultura e Mar para reivindicar um papel mais ativo de Ílhavo na estratégia nacional para a economia azul e na valorização da fileira do bacalhau. José Manuel Fernandes reconheceu a centralidade do território, destacou a capacidade de transformação e inovação da indústria e apontou o mar como um espaço de criação de riqueza, desde que articulado com a sustentabilidade, a investigação e a coesão territorial.
Durante cinco dias, o Festival do Bacalhau reúne gastronomia, cultura, música, artesanato e atividades em torno de um produto que, em Ílhavo, ultrapassa a dimensão gastronómica para assumir-se como parte da identidade do território e como uma importante atividade económica. E foi, precisamente, essa dimensão económica e estratégica que esteve no centro da intervenção de Rui Dias na cerimónia de abertura.
Perante o ministro da Agricultura e Mar, o presidente da câmara de Ílhavo defendeu que a relação do território com o bacalhau e com o mar não deve limitar-se à preservação da memória, mas deve ser projetada para o futuro, colocando Ílhavo no centro da discussão sobre a economia azul. “Queremos que o mar continue a ser uma oportunidade económica. Queremos que a pesca do bacalhau continue a ser valorizada”, afirmou o autarca, realçando a “enorme responsabilidade” e “enorme potencial” de Portugal na sua relação com o mar.
Rui Dias lembrou o peso nacional da fileira do bacalhau e destacou a concentração, em Ílhavo, de diferentes elos da cadeia de valor, desde os armadores e o Porto Bacalhoeiro à armazenagem, transformação, distribuição, restauração, turismo e património. Segundo os dados apresentados pelo presidente da câmara, existem no município 14 empresas diretamente ligadas ao setor, responsáveis pela movimentação de cerca de seis mil toneladas de bacalhau, por aproximadamente 150 milhões de euros de volume de negócios e por mais de 750 postos de trabalho.
Números que, para o autarca, ajudam a sustentar a afirmação de Ílhavo como “capital portuguesa do bacalhau”, mas que também traduzem uma responsabilidade. “Esta história não pode ser apenas lembrada, tem de ser valorizada, qualificada, promovida”, defendeu, apontando a necessidade de transformar o legado da Faina Maior em “conhecimento, cultura, turismo e oportunidades”.
O presidente da câmara de Ílhavo dirigiu-se diretamente a José Manuel Fernandes para defender que a cultura marítima e conhecimento acumulado ao longo de gerações em Ílhavo devem continuar a ter lugar nas políticas nacionais para o mar e que o município deve ter “uma palavra a dizer” na construção desse futuro.
A resposta de José Manuel Fernandes passou pelo reconhecimento da importância de Ílhavo, mas também pela valorização da capacidade portuguesa de transformar tradição em atividade económica. Para o ministro, a própria história do bacalhau demonstra que Portugal foi capaz de inovar, acrescentar valor e desenvolver uma indústria em torno de um recurso pescado fora das suas águas territoriais.
“Somos capazes, nós inovamos, nós acrescentamos valor”, afirmou, destacando a indústria transformadora e a capacidade de exportação da fileira. José Manuel Fernandes apontou ainda a Gafanha da Nazaré como um território particularmente relevante pela concentração de empresas, indústria, atividade piscatória e transformação do pescado.
O governante alargou, contudo, a discussão para lá do bacalhau. Gastronomia, turismo e restauração integram, na sua perspetiva, uma cadeia de valor mais ampla, em que a capacidade de transformar e valorizar os recursos é determinante para a criação de riqueza. A economia azul deverá, defendeu, conciliar esse objetivo com a biodiversidade, o turismo, o lazer, a competitividade, a coesão territorial e a sustentabilidade ambiental, apoiando-se também na inovação e na investigação.
“Ílhavo, obviamente, está no centro deste objetivo”, afirmou José Manuel Fernandes, enquadrando o município numa estratégia mais abrangente para o litoral e para o mar português e reconhecendo o seu papel na valorização económica e cultural desta relação com o oceano.
Passado e futuro
Na cerimónia de abertura foi também apresentada a nova identidade visual do Festival do Bacalhau, construída em torno de um nó de marinheiro. O símbolo procura traduzir a ligação entre passado e futuro, entre o mar e a terra e, sobretudo, entre os homens que partiram para a pesca do bacalhau e as mulheres que ficaram em terra.
À imagem do nó foram acrescentados padrões inspirados na roupa usada pelas mulheres das antigas secas de bacalhau, numa referência a uma dimensão da história da Faina Maior que, segundo Rui Dias, nem sempre teve a mesma visibilidade. A nova identidade pretende, assim, representar uma memória coletiva que não se escreve apenas a bordo dos navios, mas também nas casas, nas ruas, nas empresas e nas famílias que ficaram em terra.
A edição de 2026 traz ainda novidades à programação e ao próprio conceito do evento. A componente gastronómica conta com a curadoria do chef Hélio Loureiro, enquanto um novo espaço dedicado à identidade marítima revisita a história da Faina Maior e da pesca do bacalhau. Miranda do Douro é o município convidado desta edição, aproximando dois territórios através de uma mesma ligação à gastronomia do bacalhau.
Quanto ao cartaz musical, outro dos “pratos fortes” do festival, contou ontem com Quim Barreiros, esta quinta-feira atua Carolina Deslandes e, nos próximos dias, Gabriel O Pensador, Delfos e a fechar, no domingo, Ricardo Ribeiro. O programa inclui ainda as tradicionais “Corrida mais Louca da Ria”, no sábado, e a “Volta ao Cais em Pasteleiro”, no domingo.
No recinto, as associações locais mantêm um papel central na concretização do Festival, assegurando a operação de dez restaurantes, dois bares e duas padarias, além de outras áreas da organização. Para Rui Dias, são estas centenas de pessoas que dão ao evento a dimensão de comunidade que ultrapassa a mera programação.
Entre memória e inovação, o Festival do Bacalhau procura, assim, manter viva uma tradição sem a transformar numa peça de museu. O bacalhau continua a ser uma das principais formas de Ílhavo contar a sua história e afirmar a sua identidade, mas também um ponto de partida para pensar o futuro de um território cuja relação com o mar permanece económica, cultural e socialmente determinante.
