Assine já


Desporto // Vagos  

Impasse deixa atletas da AD Vagos sem acesso ao Pavilhão Municipal

Pais de atletas da ADV – Associação Desportiva de Vagos – estão revoltados com a impossibilidade de as equipas do clube utilizarem o Pavilhão Municipal de Vagos desde o arranque da nova época desportiva, a 1 de setembro. Em causa está o processo de candidatura para a cedência dos equipamentos desportivos municipais, que a câmara de Vagos passou a gerir através de uma nova plataforma digital. Segundo Mário Luís, presidente da ADV, a situação estará a afetar cerca de uma centena de praticantes das várias modalidades de pavilhão.

A falta de informação e a incerteza quanto à resolução do problema são as principais críticas apontadas pelos encarregados de educação. Marisa Santos, mãe de uma jovem basquetebolista e residente em Oliveira do Bairro, foi uma das pessoas que chegou a Vagos para o primeiro treino da época e encontrou o pavilhão encerrado. Desde então, segundo relata, já foram comprometidos cinco treinos apenas no basquetebol, enquanto outras modalidades enfrentam o mesmo problema.

A mãe, que transporta quatro atletas de Oliveira do Bairro para Vagos, refere que algumas equipas tiveram de recorrer ao Colégio de Calvão, enquanto outras procuraram soluções ao ar livre. Entre os atletas afetados, salienta, estarão crianças com apenas seis e sete anos. “Os problemas podem acontecer, mas não nos darem um feedback claro, de forma a nós entendermos, causa-me imensa estranheza”, lamenta, criticando a ausência de uma explicação clara e de uma indicação sobre a data em que a situação poderá ser resolvida.

Também Isabel Ranito, mãe de duas atletas da ADV, de 15 e 10 anos, descreve uma situação marcada pela dúvida. A filha mais velha, que habitualmente se desloca sozinha para o pavilhão municipal, saiu de casa no dia 1 de setembro para treinar, mas acabou por ser encaminhada para outra instalação, obrigando a família a reorganizar as suas rotinas. “Há muito ruído. Nunca sabemos onde será o treino seguinte”, afirma.

Já a filha mais nova, atleta do escalão sub-12 de mini-basquete, chegou a ter prevista a realização dos treinos ao ar livre, no recinto da escola secundária de Vagos. A solução acabou, contudo, por ser abandonada devido às condições do local. Segundo Isabel Ranito, o calor, o piso de alcatrão, a ausência de casas de banho e de pontos de água e a inadequação das tabelas para a prática de mini-basquete levaram ao cancelamento dos treinos. Uma reunião prevista para o pavilhão municipal com os pais dos escalões de mini-basquete acabou igualmente por não se realizar, permanecendo os atletas mais novos em casa e sem treinos.

Para Isabel Ranito, o principal problema não é necessariamente a necessidade de recorrer temporariamente a outra instalação. “Não é a primeira vez que isso acontece. Quando há uma razão válida, uma justificação, está tudo bem”, afirma. O que considera incompreensível é a falta de explicações e de uma previsão sobre a resolução do problema. “Pode ser uma falha do clube, pode haver um problema da Câmara, mas os pais deviam ser chamados e informados para sabermos com que linhas nos cosemos”, defende.

Esta situação, acrescenta, afeta não apenas a prática desportiva das atletas, mas também a organização das famílias. A filha mais velha, que antes se deslocava autonomamente para o pavilhão, passou a necessitar que a família a transporte para uma instalação mais distante, obrigando a uma viagem de cerca de 15 a 20 minutos. “Para além dos custos, é toda a dinâmica familiar que muda”, refere, apontando também a ansiedade das crianças que esperavam pelo início da nova época e pelo reencontro com os colegas.

“Pavilhão disponível, mas sem atletas”

Mário Luís reconhece o mal-estar e atribui o problema à implementação de um novo procedimento municipal para a cedência das instalações, através do Portal do Associativismo de Vagos. O dirigente explica que a introdução dos documentos na plataforma implica sucessivas validações pelos serviços municipais, podendo cada uma delas demorar alguns dias.

Assim, perante a proximidade do início da época, a ADV terá procurado obter uma autorização provisória junto da câmara, enquanto continuava a cumprir os passos exigidos na plataforma, de forma a evitar a interrupção da atividade desportiva. dirigente diz que essa possibilidade não foi aceite. “Nada contra a modernização dos procedimentos. Mas sempre por forma a que essas alterações contribuam para uma melhoria, e não para um atraso no funcionamento”, sustenta Mário Luís.

Para o dirigente, a situação torna-se particularmente difícil de compreender porque, afirma, o pavilhão está disponível. “Os treinadores estão disponíveis, os pais estão disponíveis para levar os seus filhos, os filhos estão ansiosos para começar a época, os funcionários municipais também estão no pavilhão disponíveis para esse efeito e o próprio pavilhão está disponível – não está para obras nem nada – e, por esta questão burocrática, derivada de uma alteração administrativa, não se pode utilizar o pavilhão.”

O presidente adianta que a ADV não consegue contabilizar com rigor o número de atletas afetados, mas estima que sejam cerca de uma centena. Enquanto aguarda uma solução, a associação tem recorrido ao Colégio de Calvão para dois escalões e procurado espaços ao ar livre, no recinto do Agrupamento de Escolas de Vagos, para os restantes atletas. Uma alternativa que, admite o presidente, “não se consegue prolongar no tempo”.

Questionado sobre a possibilidade de o processo ser resolvido rapidamente, Mário Luís diz não conseguir avançar com uma previsão. “Se fosse uma questão de fé, dizia hoje ou ontem, até na semana passada. Por uma questão de realidade, não tenho noção”, afirma.

Autarquia aponta falta de acordo

A vereadora do Desporto da câmara de Vagos apresenta, contudo, uma perspetiva diferente sobre o caso. Isabel Capela realça que a ADV ainda não tem a candidatura para cedência do espaço concluída e aprovada, condição que considera indispensável para a utilização do pavilhão. A autarca explica que os pedidos de utilização das infraestruturas do complexo desportivo municipal – pavilhão, estádio e piscinas – decorrem entre 15 de agosto e 15 de setembro, no âmbito do Subprograma 6 do Programa Municipal de Apoio ao Associativismo Desportivo.

A vereadora lamenta os constrangimentos sentidos pelos atletas e famílias, mas sublinha que a autarquia tem de cumprir o regulamento e analisar todas as candidaturas antes de decidir sobre as cedências. Segundo Isabel Capela, as candidaturas são analisadas de acordo com o regulamento, podendo a câmara decidir ceder determinado espaço a uma associação e não a outra, dependendo dos pedidos apresentados e do cumprimento dos requisitos estabelecidos.

A autarca vaguense acrescenta que a mudança para o Portal do Associativismo de Vagos foi previamente comunicada às associações. Segundo Isabel Capela, a câmara enviou informação sobre a alteração dos procedimentos e foram disponibilizados vídeos demonstrativos e tutoriais para auxiliar os clubes na utilização da plataforma. Refere ainda que o portal não servirá apenas para a apresentação de candidaturas, destinando-se também ao registo e à divulgação das atividades desenvolvidas pelas associações.

Um dos pontos centrais da posição da vereadora prende-se com a utilização da nave do Pavilhão Municipal, espaço pretendido não apenas pela ADV, mas também pelo Clube Desportivo da Costa de Prata e pelo Always Young, da Gafanha da Boa Hora.

Segundo Isabel Capela, foram promovidas duas reuniões com as três associações, ainda antes do período de candidaturas, precisamente para tentar encontrar uma solução que permitisse compatibilizar a utilização do espaço e evitar os constrangimentos que agora se verificam.

A autarca afirma que o Always Young não apresentava conflitos de horário, mas que existia uma incompatibilidade entre os horários pretendidos pela ADV e pelo Costa de Prata. Segundo Isabel Capela, a ADV não aceitou reajustar os seus horários nem partilhar a nave do pavilhão com o outro clube.

“Nenhum clube pode ter exclusividade de utilização do espaço de segunda-feira a sábado nos horários que entender, prejudicando os outros clubes que também necessitem do mesmo espaço”, defende.

Na perspetiva da vereadora, a possibilidade de os clubes chegarem a um entendimento para a utilização partilhada do espaço constituía precisamente a solução provisória para evitar a atual interrupção dos treinos. Não tendo sido alcançado esse acordo, considera que terão agora de ser cumpridos os procedimentos previstos no regulamento e que caberá à Câmara tomar uma decisão após analisar as candidaturas.

Isabel Capela compara a situação com a utilização do Estádio Municipal de Vagos, onde, segundo explica, o GRECAS (atletismo) e o Futebol Clube Vaguense conseguiram chegar a um entendimento sobre os horários. Por essa razão, acrescenta, mantiveram a utilização do espaço sem interrupções, apesar de o período de candidaturas ainda estar a decorrer.

A vereadora afirma ainda que o pedido apresentado pela ADV foi analisado pelos serviços municipais e devolvido ao clube para esclarecimento de alguns pontos. A decisão final sobre a cedência da instalação será tomada depois de o processo estar concluído e analisado.

Isabel Capela garante uma resposta definitiva até 15 de setembro, data em que termina o prazo para a apresentação das candidaturas.