Na semana passada anunciaram o Volta, decorrente duma diretiva europeia, que visa aumentar a reciclagem de garrafas de plástico e latas para 90% em 2030.
Como funciona? Venha daí nesta viagem (com muita paciência). Primeiro, claro, paga. Uma taxa. €0,10 por cada embalagem. Depois, tem de cuidar das embalagens como se fossem preciosidades. Se as mantiver imaculadas, deve procurar onde estão colocadas as máquinas Volta. São azuis. E então mete-se no seu carro (a poluir e mais uns litros de combustível, nesta busca de salvar o planeta) e vai ao encontro das ditas máquinas. Tem de aprender a usar aquilo – assumindo que funcionam, sou um otimista – criar uma conta, colocar cada embalagem individualmente no buraquinho, esperar que a máquina reconheça a embalagem e se sinta satisfeita com o carinho que dedicou à conservação do estado da latinha, para depois lhe devolver a taxa que já pagou. Ou colocá-la numa wallet digital para gastar em produtos selecionados. Ou para doar a uma sortuda instituição definida pelo Estado.
Ainda aí está? Ou já desistiu?
Tem tudo para ser um sucesso. Filas, resmas, charters de consumidores, contribuintes, em frente às máquinas azuis, a salvar a natureza. Ou então não. E as bebidas vão apenas ficar €0,10 mais caras.
E nos restaurantes? Vamos ter de trazer as garrafas e latas num saquinho (de plástico) para devolvermos à máquina azul?
E se for o restaurante a devolver ao Volta? “Ora então, a conta, não é? Um bife do pojadouro €17, um papo-seco €0,25, um café €1 e uma água em garrafa de plástico, vamos inspecionar se tratou bem dela, humm, sim senhor, o senhor vai querer levar a garrafa, ou deduzo €0,10 na conta?”.
Caso o restaurante venha a ter de cobrar os €0,10, provavelmente terá de alterar (e pagar) o sistema de faturação para que não se aplique IVA à taxinha.
Para não falar do tempo para metodicamente avaliar cada embalagem e introduzi-las uma a uma na máquina azul.
Gostava muito que, daqui por 1 ano, alguém se desse ao trabalho de verificar quantas embalagens foram recicladas e, em paralelo, quanto é que o Estado angariou com esta taxinha. E quanto custaram as máquinas (azuis) e as campanhas.
Há dias fui verificar a pressão dos pneus do carro. É sabido que manter a pressão ajustada é um factor muito importante para a segurança. Há duas semanas, o MAI anunciou – e muito bem – um aumento das multas sobre infrações graves porque os dados da sinistralidade rodoviária estão a crescer. Estava na bomba da GALP, que tinha uma máquina do ar novinha em folha, bonita, laranja, brilhante. E com um leitor automático de cartões bancários. Como? Sim senhor: se quer ar, pague. €1,50 por cada 5 minutos. Compreensível… com o preço do gasóleo tão baixo, é preciso aumentar rendimento da petrolífera. E como o setor é muito concorrencial, seguramente não vamos ver a BP ou a Repsol a copiar esta ideia. Tal como não vemos os mesmos preços afixados na autoestrada.
Depois do grande sucesso das tampinhas agarradas às garrafas, inovação que nos levou aos mais altos patamares civilizacionais – e eficiência mínima – continuamos a senda das regulações e das taxas. Da burocracia e dos custos de contexto. Alguém se lembra do Mercosul? As extremas esquerda e direita (iguaizinhas) mandaram-no para tribunal.
Continuemos então assim, enquanto o mundo pula e avança, suave, seguro, estável e pacífico, à espera que a Europa tome o seu tempo para regular e o Estado a taxar.
