Serão milhentos os conceitos sobre beijos.
Há-os livres ou forçados, húmidos e secos, “judasmente” traidores e os mais ardentes de amizade e carinho desinteressado, de escárnio e de incentivo, de teatro e de família, de saudação ou vingança, livres e requisitados, públicos e resguardados, de despedidas e chegadas, sonoros ou recatados e envergonhados.
A listagem é interminável e não acaba jamais.
Minha mãezita, na sua simplicidade, ternura e verdade, apertando-me nos seus braços, não parava de olhar para a prenda recebida de Deus, que era eu, e não se cansava, com muita doçura, de me cobrir de beijos, o que sempre fez, pelos anos fora, enquanto viveu. Penitencio-me, hoje, porque eu não lhe dei tantos quantos merecia.
Também recordo o que soava quando dois namorados se beijavam, furtivamente, na cara, pela primeira vez e após meses de namoro sério. Hoje tudo isso entrou no clima da maior banalidade.
Beijava-se a mão ao pai e à mãe, na altura de recolher para dormir, como também ao encontrar-se os avós ou os padrinhos e o beijo, na altura, fazia já parte do estatuto de um respeito pela idade ou missão.
Abrimos a boca de admiração, de certo modo cobarde, por quanto mudou nestes nossos tempos que são breves e não de séculos atrás. Hoje, no meio da rua, em qualquer ambiente, hora e sítio, é trivial depararmos com jovens apegados uns nos outros como se estivessem a carregar as baterias dos atuais carros que trabalham com eletricidade.
Mas, volto ao significado do beijo. A gratidão é uma virtude nas pessoas bem-educadas e reconhecidas a alguém por alguma coisa.
Neste sentido, não devo deixar passar um momento de beleza, testemunhado por algumas bastantes pessoas. Eu já batizei milhares de crianças e outra gente mais adulta. Digo sempre que não esqueçamos de agradecer a Deus tal chamamento. Mas, caso interessante e único que me lembre, aconteceu há poucos dias atrás com uma menina que completava dois aninhos e foi batizada. Sempre serena e com os olhitos curiosos, viveu o momento. Quando acabei de lhe enxugar os cabelos, naturalmente molhados, ela puxou-me a si e disse, num gesto de gratidão: «um beijo para ti». Não sei o que respondi, mas que me emocionei, interiormente, é verdade.
Meditei seriamente naquele sinal. Agradeceu-me e ambos agradecemos ao Deus que nos chama a sermos família, onde o amor, a respeitabilidade e a gratidão devem fazer sempre parte do estatuto da gente guiada pelo e com amor. Não esqueceremos, certamente, o esclarecimento de S. João, na sua primeira Carta quando escreve: «Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor» (1Jo.4/7-8).
Ora, só a Ele, mesmo com um beijo apenas imaginado, havemos de agradecer esse Amor.
