A enguia da Ria de Aveiro, outrora abundante e integrante da dieta popular, é hoje um “petisco” caro e raro, mas mesmo assim há restaurantes que a servem sem ter mãos a medir.

Dizem os entendidos que a enguia não é toda igual: a da Ria de Aveiro tem um sabor característico e forma própria de confeccionar, sendo capturada sobretudo à noite, com artes próprias dos pescadores da região, que conhecem os seus esconderijos e hábitos nocturnos.

São saberes tradicionais que se juntam ao saber académico numa “conversa” promovida pela Assembleia Municipal de Aveiro, tendo no horizonte a possibilidade de certificação, para evitar que “o povo ande enganado sem saber o que come”, como disse Manuel, o marnoto da Gafanha que recolhe o sal nas marinhas, aludindo à enguia de piscicultura, alimentada com rações.

O professor universitário José Eduardo Rebelo é o convidado do terceiro “Aveiro à conversa”, marcado para hoje, quinta-feira, dia 13, às 21h, no auditório da sede da Assembleia Municipal de Aveiro.

Trata-se de um ciclo de debates destinado a dar a conhecer à comunidade a investigação da Universidade sobre temas que fazem parte da identidade de Aveiro e um espaço de diálogo que tem dado resultados com impacto económico, nomeadamente com a certificação dos Ovos Moles e a promoção do sal de Aveiro, como explicou à Lusa Miguel Capão Filipe, presidente da Assembleia Municipal de Aveiro.

Desta feita, o tema são “Os peixes da Ria de Aveiro e a certificação das enguias”, questão que está na ordem do dia por se pretender acautelar a origem e a genuinidade da confecção das enguias de Aveiro, apreciadas em caldeirada ou ensopado, ou ainda fritas com molho de escabeche, e que são, para Capão Filipe, o primeiro prato da gastronomia local.

José Eduardo Rebelo vai dar conta de estudos feitos sobre a diversidade biológica da Ria, com especial ênfase na enguia, que reconhece ser “um ex-líbris da Ria de Aveiro, em termos culturais e com impacto económico”.

No verão, como disse à Lusa a peixeira Rosa Maria, que as vende no mercado da Costa Nova, o preço ao quilo chega aos 30 euros e quase não há para vender.

O número de enguias na Ria tem estado a diminuir, confirma-o o docente da Universidade de Aveiro.

Explicações empíricas não faltam entre quem anda às enguias nos lodos da Ria.

António Soares Branco vem de as apanhar para fazer uma caldeirada com os amigos e adiantou que o assoreamento leva a enguia a aparecer menos, sobretudo ao sul, no canal de Mira.

Já Manuel, que correu mundo ao bacalhau e amanha uma marinha de sal às portas de Aveiro, disse que a decadência da salicultura é a principal causa.

As salinas, que quando se vazavam davam cestas de enguias, estão abandonadas e arruinadas e o peixe assim não se cria.

Sendo assim, que enguias são servidas? Uns dizem que “vêm de fora”, de Marrocos e de outras paragens, outros que são criadas “artificialmente, à base de ração”, concordando no essencial: a enguia da Ria de Aveiro, apanhada nos canais ou nas marinhas, tem outro sabor, além do que lhe é dado pelos condimentos, também eles variáveis.

As explicações académicas ficam para “Aveiro à conversa”.