Foi no Cineteatro de Anadia que seniores e juniores se encontraram, pela terceira vez, para dar corpo a um debate em torno da revolução do 25 de Abril.
O evento realizou-se na última sexta-feira, dia 22, pelas 14h.
Organizada pela Câmara Municipal de Anadia, no âmbito do programa comemorativo do 42.º aniversário da revolução de Abril, esta é já a terceira edição do evento que, como habitualmente, juntou alunos e professores de estabelecimentos de ensino públicos e privados do concelho, e seniores provenientes de instituições particulares de solidariedade social que participam no projeto “Leituras sem Idade”.
A tarde começou com uma breve encenação levada a cabo pela professora Noémia Machado, professora bibliotecária na Escola Básica n.º2 de Vilarinho do Bairro e por seu marido Machado Lopes, figura do mundo da cultura e das artes de palco.
Ambos falaram do antes e do pós 25 de Abril: ele, “filho de um tempo velho que teve como mãe a Ditadura e como pai o Fascismo”; ela, “filha de um tempo novo que teve como mãe a Democracia e como pai o Futuro”.

Testemunhos emocionados. Durante o encontro, quatro seniores relataram, na primeira pessoa, a forma como viveram o 25 de Abril e o impacto da revolução nas suas vidas. No entanto, três deles partilharam sobretudo as experiências pessoais vividas enquanto “retornados”. Foi o caso de Guilhermina Brunido, de 81 anos, utente do Club de Ancas. Um testemunho sofrido pelo que perdera, do que fora obrigada a deixar para trás. Por isso, diz que o “25 de Abril foi mau. Os militares pretos ameaçavam os brancos. Era uma questão de sobrevivência. Viemos de Angola e começámos do zero”. A terminar desejou que os jovens de hoje “tenham melhor sorte do que aquela que eu tive na minha vida”.
Também Maria Alice Mota, utente da Associação Social de Avelãs de Caminho, centrou o seu testemunho nas mortes e massacres ocorridos com a descolonização de Angola: “não voltaríamos a Angola”. Contudo, reconhece que o 25 de Abril “trouxe muitas coisas boas”. Uma transição que a seu ver “valeu a pena; trouxe desenvolvimento em vários aspetos.”
Aos 83 anos, Manuel Pinho, utente da Casa do Povo de Amoreira da Gândara, ainda se comove quando fala deste tema tão sensível quanto sofrido.
“Fui para Angola em 1962.” A família juntou-se mais tarde e foi o negócio do peixe que fez prosperar esta família bairradina. “Tinha uma vida boa”, mas como tantos outros milhares de portugueses, para fugir da guerra, deixou tudo para trás: “livrei a pele” e recomeçou a vida por cá: “foi tudo muito difícil. Nunca mais lá voltei. Nem vale a pena lá voltar”, disse. Aos alunos presentes, disse que gostava de Salazar, que nunca fez mal à sua família, pelo contrário, “sempre foi bom para a minha família”.
O último testemunho da tarde caberia a Providência Moreira. Com 86 anos, esta utente da Clínica Belorizonte falou da miséria que se vivia em Portugal antes do 25 de Abril de 1974, sobretudo por causa dos racionamentos: “havia muita miséria”. Depois, a revolução dos cravos “foi fantástica, espetacular, porque era muito desejada.”
Reconhece que se o 25 de Abril não tivesse acontecido estaria pior, lamentando apenas que os ideais de Abril “tenham sido desvirtuados”.
Às muitas dezenas de jovens presentes deixou um conselho no sentido de ajudarem a construir um país e um mundo melhor porque “vós sois o futuro de Portugal”. E, porque o 25 de Abril está na cabeça de cada um de nós, devemos e temos obrigação de saber valorizar essa herança, com trabalho dedicado, esforçado e afinco, por forma a atingir o mérito, explicou.
“Considerem o próximo como vosso irmão para construir um mundo melhor”, concluiu Providência Moreira.
No final das intervenções, a palavra foi dada aos jovens, que questionaram os oradores acerca das experiências relatadas.
O encerramento da sessão fez-se ao som de um rap dedicado à efeméride, interpretado pelo autor, o jovem conimbricense João Nina.

Liberdade e respeito. Na ocasião, o presidente da Assembleia Municipal de Anadia, Adriano Aires, mostrou-se sensibilizado pelos testemunhos trazidos pelos quatro idosos, destacando aos presentes que o sonho, a revolução, a conquista da democracia trouxeram coisas boas mas também sofrimento a muitos portugueses, como foi o caso de todos aqueles que regressaram das ex-colónias.
A terminar, o vice-presidente da autarquia anadiense, Jorge Sampaio, também se mostrou bastante impressionado com os quatro testemunhos.
“Nem tudo foi bom para todos”, como ficou presente ao longo da tarde, mas é incontornável que são “testemunhos importantes da vida do nosso país”.
Aos seniores agradeceu pela partilha das suas vivências, mas também “o país que fizeram e que somos hoje”, enquanto que aos jovens recordou que o melhor do 25 de Abril é o facto de, hoje, se poder dizer no mesmo sítio que se é contra ou a favor, dizer livremente o que pensamos ou gostamos, ainda que se deva ter sempre presente a obrigatoriedade de respeitar o outro: “a nossa liberdade termina quando começa a do outro”.
Catarina Cerca