Com respeito pela divergência, em defesa de uma democracia madura, como cidadão e contribuinte cansado de assistir a autênticas batalhas verbais, que raiam uma manifesta falta de civismo, indesculpável nos políticos que nos governam, não podia deixar em claro, analisar os debates a que assistimos diariamente nas rádios e nos diferentes canais de televisão.
Vivemos numa democracia, e isso é uma conquista que não deve ser dada como garantida. A democracia não se resume ao direito de votar de quatro em quatro anos. Ela vive, acima de tudo, na capacidade que temos de conviver com ideias diferentes, de debater com rigor e de respeitar quem pensa de forma distinta da nossa.
É vulgar, infelizmente, assistirmos a debates políticos onde os intervenientes, em vez de confrontarem ideias e políticas, atacam pessoas e partidos. Critica-se o caráter, o passado, as motivações ou a integridade de quem ousa discordar. Passa-se horas a apontar defeitos pessoais ou a desqualificar o adversário, como se a divergência de opiniões fosse uma ofensa pessoal ou uma traição à nação.
Esta forma de fazer política empobrece o debate público. Quando o foco deixa de estar nas propostas concretas: na economia, na saúde, na educação, na justiça ou na forma como queremos organizar
a sociedade, e passa para ataques pessoais; perdemos todos.
Os cidadãos perdem a oportunidade de ouvir argumentos sólidos, de comparar soluções e de formar uma opinião mais informada. A própria democracia sai enfraquecida, porque o ódio e o desprezo substituem o respeito e o raciocínio.
Acredito profundamente que um político honesto e maduro deve ter a coragem de criticar políticas, não pessoas. Pode, e deve, discordar veementemente de uma medida económica, de uma reforma social ou de uma decisão política contrária ao seu ideário. Mas deve fazê-lo com argumentos, com dados e com respeito pelo interlocutor. Discordar não é odiar. Ter uma opinião diferente não transforma o outro num inimigo.
A verdadeira força da democracia reside precisamente na sua capacidade de acolher a pluralidade. Respeitar a divergência não é sinal de fraqueza ou de falta de convicções. Pelo contrário: é sinal de maturidade cívica e de confiança nas próprias ideias. Quem tem argumentos sólidos não precisa de desqualificar quem pensa de outro modo. Basta expor, comparar e deixar que os cidadãos julguem.
Por isso, defendo uma cultura política honesta e mais elevada:
- Que se critiquem as políticas, não as pessoas;
- Que se respeite o direito de cada um ter uma visão diferente;
- Que se valorize o debate rigoroso, sereno e fundamentado;
- Que se preserve a dignidade de quem serve o país, independentemente da cor política.
Só assim construímos uma sociedade mais livre, mais justa e mais unida na diferença. Porque democracia não é todos pensarmos da mesma forma. Democracia é sabermos viver juntos, mesmo quando pensamos de forma diferente.
