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Oliveira do Bairro // Troviscal  

Simbologia sagrada reveste-se de arte na Igreja do Troviscal

O interior da Igreja Matriz do Troviscal sofreu uma profunda transformação, um projeto de renovação artística e litúrgica, idealizado pela Comissão Fabriqueira e concretizado por Dom Bernardino Ferreira da Costa, abade do Mosteiro de Singeverga.

A ideia nasceu há dois anos. “Queríamos fazer algo diferente na nossa Igreja. E chegámos ao padre Bernardino através da Diocese de Aveiro”, explicou ao JB o vice-presidente da Fabriqueira, Danny Tavares. Um ano depois, a ideia começou a ganhar forma, e em poucos meses ficou concluída. “Foi a primeira fase. Vamos terminar de a pagar e, até final do ano, colocaremos em marcha uma segunda fase, que inclui as portas e o batistério”, completa o responsável da Fabriqueira, Pe. João Carvalho.

Numa visita ao local, vislumbramos um novo espaço celebrativo, que utiliza a madeira de cedro para criar uma linguagem simbólica que une o rito ao espaço sagrado. Numa linha circular, em que tudo gira à volta do altar, remete-nos para o infinito, para a imagem do Sagrado Coração de Jesus, ao fundo da igreja. Aqui, de cada lado, mantêm-se, devidamente enquadrados no novo projeto, as imagens de N.ª Sra. da Graça e do padroeiro, São Bartolomeu. Assim como foram mantidas no devido lugar, nos seus nichos de pedra, mas com novos painéis, as imagens dos altares laterais – Santa Teresinha, São Sebastião, Nossa Senhora de Fátima e São José. Foi também criado um novo altar-mor – apresentado como o ponto culminante do templo -, um ambão e uma cadeira presidencial. Há ainda uns banquinhos, mas estes em carvalho francês, de forma a não ‘roubarem’ a atenção da cadeira presidencial.

No seu conjunto, as intervenções procuram harmonizar a arquitetura sagrada com o ritual cristão, transformando os elementos físicos em linguagens de transcendência espiritual. “A arte sagrada, noutros países, como Espanha, Itália, etc., é uma expressão digna desse nome. O que quisemos criar também aqui, no Troviscal, é arte moderna, com uma linguagem atual, que vá ao encontro das novas gerações”, afirma Dom Bernardino, monge da Ordem de São Bento e atual abade do Mosteiro de Singeverga, a única abadia beneditina masculina em Portugal, localizada em Roriz, Santo Tirso.

Pelas suas mãos e da sua equipa, já foram executados vários projetos, a maioria na zona norte do país, sendo o do Troviscal o maior que realizaram até agora.

O trabalho de Dom Bernardino foi sugerido pela Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja de Aveiro (CDBCIA), que aconselha – sem impor – pessoas que concretizem estas obras dentro das normas litúrgicas, mas ao mesmo tempo conjugando artisticamente o gosto das populações e a evolução da própria sociedade. “Dom Bernardino introduz conceitos bíblicos acima da espiral, isto é, em cima da base, ele transporta passagens bíblicas, onde é possível contar a história dos santos, a sua vida”, menciona o diretor da CDBCIA, Eduardo Domingues, para quem a Igreja deve “acompanhar os tempos, mostrar-se mais próxima e mais acessível e, também falar através da arte”. Embora à distância, Eduardo Domingues acompanhou sempre o processo no Troviscal e fará uma visita ao templo na próxima semana.

Na rota do turismo religioso

O trabalho que Dom Bernardino foi executando no seu ateliê, para o Troviscal, suscitou a curiosidade de quem por lá passou ao longo de meses. De tal forma que há duas semanas, no dia 23 de maio, foi organizada uma visita à igreja, para ver in loco as peças no devido lugar. “Vim com um grupo, de 56 pessoas, na maioria fazendo parte do grupo coral do Mosteiro de Singeverga, que ficaram maravilhadas. A reação foi a que esperávamos: «Apetece estar aqui»; «Ficava aqui o dia todo». E, de facto, louvo a Comissão Fabriqueira e o Padre João Carvalho, porque a Igreja do Troviscal está mais convidativa e é esse o objetivo, que as pessoas entrem e tenham vontade de permanecer e de falar com Deus.”

Danny Tavares garante que, de uma forma geral, a reação dos paroquianos foi boa. “Houve um sentimento profundo de mudança e recetividade para isso. Claro que há sempre uma ou outra pessoa com uma ideia mais preservadora. Mas o balanço é positivo.”

Da mesma opinião comunga o Padre João. “Há quem goste e há quem não goste, porque a arte é isto mesmo. Mas se, num primeiro momento, o sentimento foi de espanto e até de choque, agora, com a igreja mais iluminada, com a madeira de cedro já a mudar de cor, o sentimento e a aceitação começam a ser diferentes”, sublinha o presidente da Fabriqueira, que confirma o pedido para visitas ao templo. “É a primeira igreja do género na região Centro. Temos a de Oliveira do Bairro, do escultor Paulo Neves [amigo de Dom Bernardino e que o incentivou a desenvolver estas obras], mas só com altar, ambão e cadeira, e sem a perspetiva bíblica como a que temos aqui.”

Saiba mais

Altares laterais
Representam testemunhos de fé. À esquerda, Santa Teresinha (Santa Teresa do Menino Jesus), cujo painel apresenta 24 rosas, uma por cada ano da sua vida. Inclui uma escada (Escada de Jacob), que representa os degraus da humildade e a união entre a Terra e o Céu. Do lado direito, São Sebastião, cujo painel retrata o contexto do seu martírio.

Altares frontais
Aqui, vemos representados “o Anúncio e a Proteção”. O painel de Nossa Senhora de Fátima representa as aparições e o milagre do sol. Possui uma asa de anjo para criar simetria com o painel oposto, o de São José, funcionando ambos como querubins que guardam o altar-mor.

Painel no altar-mor
O painel do Sagrado Coração de Jesus foca-se na transcendência divina. Utiliza a imagem do “Cordeiro do Apocalipse” sobre o trono, de onde brota o “rio de água viva” que chega aos quatro cantos da terra (quatro são também os Evangelhos). Está ladeado por São Bartolomeu, padroeiro desta igreja (cujo painel alude ao seu martírio e ao tema das ondas do rio) e por N.ª Senhora da Graça (que representa o fogo, a sarça ardente, que a tradição interpreta como o símbolo da conceção virginal de Maria, que deu à luz sem perder a virgindade, tal como a sarça ardia sem se consumir).

Espaço celebrativo

No centro da Liturgia, o novo Altar apresenta uma forma cúbica, cuja face principal ostenta uma cruz gloriosa rodeada por 12 quadrados que se expandem pelas quatro faces do altar, simbolizando os apóstolos. O Ambão representa o Santo Sepulcro e o lugar da ressurreição. Inclui elementos que remetem para a “pedra removida” e o jardim da crucificação.
A Cátedra ou Cadeira Presidencial evita a forma de trono para privilegiar o sentido de serviço, é antes “uma cadeira que una todos”. É decorada com o Crismon (Cristo em grego) e algumas espigas de trigo, valorizando mais a comunhão do que a autoridade de quem preside.